2017 Nacional Resenhas Rock

Dirty Shot – Strange Feelings (2017)

Quinteto de Piracicaba faz rock para agradar tanto a geração do seu tio quanto a de Millennials

Por Lucas Scaliza

Se Sorocaba é a Manchester brasileira, Piracicaba seria o que? Leeds? Liverpool? Cambridge?

Após a ótima estreia da banda Capitão Nemo com Bon Voyage, da terra da Noiva da Colina vem o grupo Dirty Shot, também apostando do rock’n’roll que atualiza a proposta clássica do gênero e sabiamente coloca a voz de Rosana Metler à frente de tudo.

Ativa desde 2012, o grupo conta ainda com a guitarrista Juliana Roverotto, o baixista Rafael Tatá, o baterista Fernando Medrado e o guitarrista Rafael Negri. Strange Feelings é um bom disco de estreia que logo no primeiro play já mostra coerência estilística e uma vontade enorme de fazer rock com olho em duas gerações: uma formada por pessoas mais velhas que estão saudosas do rock clássico e outra formada por gente jovem e conectada. “March For Liberty” e “Can’t Lsiten”, por exemplo, são tão joviais quanto nostálgicas, quase soando como uma homenagem ao hard rock de 1970, de T. Rex a Alice Cooper, passando por aquele senso de diversão do Kiss, um aceno à cena glam da Los Angeles dos anos 80.

dirty_shot_2017

“Sun Goes Down” abre o disco e é uma das faixas que melhor atestam a modernidade da banda, investindo em criação de clima até resolver-se muito bem no refrão e em um delicioso solo de guitarra que poderia durar mais 30 segundos e continuaríamos viajando em sua melodia com prazer. Ela é uma faixa importante para o trabalho, pois apesar do gostinho vintage que sentiremos ao longo do álbum, a banda é século 21. Contudo, fica a sensação de que “Sun Goes Down” poderia ter uns 20 BPMs a mais e fazer dela uma abertura ainda mais impactante. A questão da velocidade é algo que “Free Space” rapidamente corrige e ainda tira uma do ouvinte, com suas cordas abafadas, pausas espertas na intro e Metler mandando ver na interpretação, lembrando até a Hayley Williams, do Paramore.

Em “Ugly Tattoos” a vocalista mostra as garras, levemente mudando de Williams para Joan Jett. A arrastada “Dead And Gone” é redondinha no melhor estilo AC/DC. Já “D.IO.” confirma uma jovialidade rara. É quando as guitarras dão espaço ao violão e soam natural e acessíveis. É outro momento em que o Dirty Shot deixa de lado o saudosismo e investe em uma canção com a cara dos jovens de hoje. A oitentista “Little Nightingale” manda o abraço final e termina o début de forma festiva, com guitarras nervosinhas e Metler novamente provando que ouviu de tudo um pouco que o rock despejou no mundo.

Strange Feelings foi no Groovie, um estúdio de Piracicaba, sob a batuta do produtor Claudio Sanchez. Não sei dizer até onde se espalhou a influência de Sanchez, mas o trabalho coletivo da banda manteve a engrenagem bastante ajeitada ao longo das nove faixas, sempre fazendo com que Metler encontrasse um lugar ideal para sua voz entre riffs e viradas de bateria de Medrado.

O que falta ao álbum são alguns elementos surpresa. De forma geral, parece bem acomodado no formato rock mais convencional, ficando fácil prever que as músicas vão de A a C, passando B (mas eles fazem alguns turns interessantes também, como na própria “March For Liberty”).  Talvez tenha faltado evocar os “estranhos sentimentos” no som e na estrutura musical também, caso seja a vontade da banda fugir um pouco do modelão retrô do rock.

O Dirty Shot não sofre com a pretensão: não tentam reinventar o gênero, não são a salvação do rock nacional (o rock não precisa ser salvo, aliás) e bolaram um disco ciente da capacidade e das referências de cada um. É notável como a dupla de guitarristas, o baixista e o baterista são competentes no que se propõe e tiram a mão para não pesar demais. São sábios ao avaliarem com esmero do que a vocalista Rosana Metler é capaz. Quando querem dar aquela forçada, ela acompanha, mas no geral, eles se moldam ao que a frontwoman faz – e isso é ótimo, pois ela acaba sendo o elo com o público da banda, que pode tanto ser formado de tiozões fãs de AC/DC ou Capital Inicial, ou jovens das gerações Z e Millennials, mais ligados na cena americana (mas que também conhecem os clássicos cantados por Dinho Ouro Preto, veja só). Apesar das comparações com Jett e Williams, Metler tem poder para ser uma referência por si só, como a Emmily Barreto do Far From Alaska. Vamos acompanhar.

O importante é ter coerência, e o Dirty Shot tem desde o princípio, ou melhor, desde a bela capa: uma jovem olhando para o horizonte urbano. Na cabeça dela podem não passar os problemas sociais da cidade lá embaixo, mas com certeza são as questões do seu eu e de sua geração, as mesmas questões retratadas nas nove faixas.

dirty_shot_2

0 comentário em “Dirty Shot – Strange Feelings (2017)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: