2017 Folk Indie Resenhas

Passenger – The Boy Who Cried Wolf (2017)

Ouça esse disco! (De preferência na madrugada)

Por Gabriel Sacramento

Madrugada de 11 para 12 de agosto. Quando pus para tocar mais uma vez o disco do Passenger, para tentar entender o que Mike Rosenberg fez desta vez. Não faz muito tempo que escrevi sobre seu disco anterior – Young As The Morning, Old As The Sea (2016). Agora, junto com o disco novo, vem a notícia de que o artista resolveu dar uma pausa na carreira. Paradas sempre são tristes, mas pelo menos ele deixou mais faixas para os seus fãs ouvirem.

É um disco que dá sono. Mas calma. Antes que você feche essa guia ou ache que vou falar mal de The Boy Who Cried Wolf, me refiro ao sentido mais positivo possível dessa expressão. O disco dá sono não por ser chato, mas por, através do sono, induzir sonhos maravilhosamente leves, fantasias gostosas, vívidas e intensamente suaves. Não te faz dormir na verdade, mas sim te leva a um estado em que a alma deixa o corpo para passear por bosques gélidos e secos em algum lugar bem distante – quase como em um daydreaming, como a língua inglesa perfeitamente define. Enquanto digito, penso em dois cenários: a Nárnia da saga Crônicas de Nárnia do grande C.S.Lewis e o ambiente de Os Oito Odiados (2015), filme mais recente de Quentin Tarantino. É fantasioso, eu sei, mas também real. Não é como fugir do real, mas imergir em um ponto de vista diferente e um tanto mais esclarecedor acerca da realidade. O disco funciona bem nesse sentido, permitindo essas divagações.

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Tanto no filme, quanto no livro, há momentos em que a temperatura aumenta, para contrapor-se ao cenário descrito inicialmente e dar seguimento à narrativa. Não espere isso em The Boy…. A ideia do disco é te deixar na gélida Nárnia o maior tempo possível.

Musicalmente, temos a já conhecida sinergia entre violões dedilhados, pianos, a voz característica do Passenger e quaisquer elementos que ele precise para complementar os arranjos. A mixagem deixou tudo muito leve e magro, mas também brilhante. Note que os instrumentos não soam tão definidos, mas como pontos que juntos – e somente juntos – formam a atmosfera sonora, como pixels em uma tela de computador. É verdade, não temos singles tão destacáveis quanto em Whispers (2014). O anterior também não tinha. O que demonstra que Mike tem seguido uma direção diferente, investindo em obras mais conceituais do que comerciais.

O conceito de The Boy Who Cried Wolf é baseado no clássico conto de mesmo nome, sobre um garoto que vivia mentindo e quando contou a verdade, ninguém acreditou. A própria faixa-título usa essa ideia para jogar na nossa cara a dificuldade de lidar com um passado obscuro cheio de pecados e a impossibilidade de apagá-lo. Em “In The End”, o cantor também explora o dualismo passado-futuro, focando em nenhum dos dois, mas no que está entre eles – o tal do presente.

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Seu som exala tristeza, porque o Passenger é um poeta. E o poeta nada é sem sua dose de tristeza e introspecção. Ele se mostra cada vez melhor na arte de olhar para dentro e abrir a porta para que a gente veja também.

Nesse clima supersensível, frio, distante e solitário, Passenger encontra segundos em suas músicas para inserir tons de beleza. E a beleza das faixas rouba a atenção do ouvinte por um tempo, depois nos devolve à atmosfera própria do álbum, só para percebermos que mesmo sem querer estamos totalmente envolvidos por ela. Certifique-se de ouvir de madrugada e busque ouvir cada som que ecoa, deixando-os vagarosamente invadir seu interior. Se deixe completar pelos timbres, letras e todo o resto. Eu viajei. Viaje também.

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2 comentários em “Passenger – The Boy Who Cried Wolf (2017)

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