2017 Pop Resenhas Rock

Steven Wilson – To The Bone (2017)

Steven Wilson desafia o público do progressivo a ampliar horizontes junto com ele

Por Lucas Scaliza

A comunidade de rock e metal progressivos, em larga medida, se acostumou a achar que os gêneros musicais rock e metal são superiores a outros estilos. É cada vez mais difícil generalizar pessoas, e não pretendo cair nesse erro, mas muitos não degustam o jazz regularmente (a menos que um artista do rock/metal flerte com o gênero), outros acham que música eletrônica é sempre sinônimo de David Guetta, e há quem ache que o R&B é uma música banal desprovida de méritos. Se falar em hip hop e as inovações do estilo então, poderá ser linchado pelo tribunal online. O complemento progressivo, mais do que qualquer coisa, sempre foi um indicativo de exploração de possibilidades sonoras, mas parece que parte deste público (há muitas exceções, talvez você seja uma, talvez não…) acredita que o termo signifique somente um “complemento de qualidade técnica”, como se uma música em 9/8 fosse, só por isso, superior a um folk de quatro acordes em 4/4.

Há esse público e há quem o desafie brilhantemente. Steven Wilson vem quebrando suas próprias barreiras e convidando seus ouvintes e fãs de rock progressivo como um todo a fazer o mesmo. álbum após álbum, em um processo que se intensificou com Hand. Cannot. Erase. (2015) – considerado um dos melhores daquele ano pelo Escuta Essa Review – e que chega a seu grau máximo de expressão (por enquanto) com To The Bone.

Steven_Wilson_2017

É o quinto álbum solo do músico inglês, frontman do Porcupine Tree e reconhecido renovador do progressivo. Depois de flertar com a melancolia do metal e do fusion em The Raven That Refused To Sing (2013), ele ampliou os horizontes propondo músicas mais ricas em cores e versatilidade no conceitual Hand. Cannot. Erase. Ao mesmo tempo em que propunha uma faixa mais pop e outras até mais eletrônicas, nunca deixava de entregar solos épicos, viagens instrumentais e um clima de tensão sempre coerente com a composição.

To The Bone, inspirado em discos do “pop progressivo” de bandas que fizeram história nos anos 80 (como o Hounds Of Love [1985] da Kate Bush, o So [1986] de Peter Gabriel e ainda trabalhos de Tears For Fears  e Talk Talk), não afasta em nada o rock de sua discografia, como muito fãs temiam, mas adiciona sim uma maior dose de pop bem feito e world music (principalmente nas percussões) que eram comuns nas bandas citadas. Por mais que “The Same Asylum As Before” soe “leve”, suas guitarras são mais rascantes que 80% do que se ouve das seis cordas nas rádios atualmente. Mesmo “To The Bone”, que recupera com esmero a estética pretendida por ele, coloca um ritmo de guitarra suingado e ainda carregado de crunch.

O resultado é o disco mais próximo de um grande público que SW já lançou. Porém, a meu ver, continua bastante distante do que é o pop mainstream atual. E aí está uma diferença a ser notada: o inglês trouxe o pop como boas mentes dos anos 80 o desenvolveram, não o pop de nossos dias. É mais nostálgico.

E o Steven Wilson de sempre está presente? Sim. Seu segredo é diversificar – quem apostaria que ele comporia uma música tão feliz quanto a ensolarada “Permanating”? – e entregar nos momentos certos o que ele tem de mais marcante. Isso acontece na balada melancólica “Pariah”, principalmente da metade para o final, quando a cantora israelense Ninet Tayeb dá a deixa para ouvirmos uma massa sonora esmagadora, e no crescendo de “Song Of Unborn”. Ou na incrível “Refuge”, que simplesmente decola ao encadear uma sequência épica de solos de harmônica (feito por Mark Feltham), de guitarra (do engenheiro de som Paul Stacey) e de sintetizador (pelo pianista Adam Holzman). Há ainda “People Who Eat Darkness”, que mistura rock clássico e uma ponte de modernidade para dar um tom mais sombrio ao que está retratando. “The Song Of I” é eletrônica, numa vibe meio Björk, com uma tensão que recupera Grace For Drowning (2011). E “Detonation”, com seus nove minutos (para nenhum purista do rock progressivo reclamar) mistura funk, rock e fusion. Mark Kollar assume a guitarra nessa canção, mas a mão jazzística lembra demais a contribuição de Guthrie Govan em The Raven….

SW já havia demonstrado que não é um compositor frio no disco passado, ao se debruçar ao longo do álbum todo sobre o drama de uma mulher que acaba se isolando, mas que recupera a esperança de viver – um fim mais feliz que o da história real que motivou Wilson a escrever a história, aliás. Em To The Bone ele joga a última pá de cal nessa desconfiança, falando de questões humanas bastante contemporâneas, como a falta de verdade na era da pós-verdade (“To The Bone”), fanatismo religioso com consequências catastróficas (“Detonation”, sobre o atentado à boate em Orlando em 2016), a vontade de se anular por completo em um mundo que exige sua exposição física e virtual (“Pariah”), o drama dos refugiados (“Refuge”) e a presença insuspeita de terroristas entre nós (“People Who Eat Darkness”), em que ele escreve de um ponto de vista bastante interessante.

Ele sempre disse que não gostaria de se repetir, mas sabemos que isso não é totalmente verdade. Quando David Bowie tomava um rumo, era para mudar mesmo (pulando de um disco experimental para soul, de drum’n’bass para eletrônica, de rock para nu jazz , etc). SW diversifica, guardando o que lhe é característico e permitindo que novos sons apareçam, como os climas estelares e várias camadas de sintetizador que povoam To The Bone. Sem fazer rupturas profundas, mantém a coerência e, mais importante, a consistência, seja no metal, no rock, no pop ou no fusion.

O novo disco é consistente pra caramba! Se Wilson já era um renovador para o rock/metal progressivo, o que To The Bone faz é inseri-lo também entre os renovadores do pop progressivo. Ele fala de dentro desse mundo, mais seguro do que nunca sobre a música que faz. Há quem vá achar que “faltou peso” ou coisa que o valha. E há quem estará preocupado com a música em si, e aí poderá avaliar se gosta ou não pelo que é entregue, e não baseado em implicâncias com estilos.

Anúncios

1 comentário em “Steven Wilson – To The Bone (2017)

  1. Diversificar e se manter ali. Isso ele faz bem. Sempre ouço um álbum novo dele e a primeira impressão é que não é tão bom quanto o anterior. Mas a culpa é minha por buscar o velho no novo. Invariavelmente, o álbum começa a crescer no meu conceito e quando percebo, já estou escutando como louco. Não sou tão eclético quanto gostaria, mas o SW me leva a lugares novos. E eu sempre gosto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: