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Third Day – Revival (2017)

Resgate da tradição musical americana

Por Gabriel Sacramento

Sabe aquelas fases das bandas em que parece que tudo que eles lançam é sensacional e a gente não consegue escolher o melhor disco ou melhor música? Enquanto digito, me vem à mente os anos 90 para o Oasis, os anos 80 para o Iron Maiden e até mesmo os anos 70 para o Stevie Wonder. Esses grupos nesses períodos pareciam incapazes de liberar algo de uma qualidade inferior e que fosse menos que surpreendente. Pois bem, é assim que me sinto quando ouço mais um disco do Third Day, depois de todos esses anos acompanhando a banda.

Há filósofos que defendem que o autoconhecimento traz libertação, o que faz bem para o ser humano. Na música, isso é uma verdade claramente perceptível o tempo todo. Bandas que conhecem bem a si mesmas, geralmente sabem o que querem e tendem a conseguir resultados plenamente satisfatórios, para eles e para os fãs, uma vez que o poder de retórica deles é maior também. O Third Day, por exemplo, alcançou um nível tão alto de conhecimento de si mesmo como banda, que parece a cada disco nos entregar canções que refletem precisamente a mente de seus membros, que são também apaixonadas, consistentes e fiéis a seu tipo de som. Durante a carreira, a banda deixou um pouco de lado a veia mais caipira e southern rock, mas quando a retomaram, mais ou menos no Revelation (2008), alcançaram um auge sonoro que tem perdurado até hoje.

A banda, atualmente um trio, chegou a trabalhar com o famoso e competente Brendan O’Brien em 2012 e ganhar vários Grammys que os estabeleceram como referência dentro do cenário do rock cristão. Revival traz no seu título a ideia de resgate e restauração, que é coerente com a mensagem religiosa que buscam apresentar e com o conceito sonoro do álbum, influenciado pelos ares nostálgicos do FAME Studios, no Alabama, onde diversos artistas clássicos da música americana gravaram preciosidades. O disco foi produzido pelo Monroe Jones e está sendo vendido como uma volta às raízes da banda.

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A faixa-título abre o álbum com energia e boogie de rock clássico, além de melodias super interessantes. “Gather Round Now” é uma das faixas mais legais – e mais fortes – que a banda já compôs, na qual, soam como se estivessem dentro de um túnel tocando um blues sobre Jesus Cristo, exaltando tanto a tradição gospel quanto a tradição blueseira sulista. Aliás, esse disco é sobre isto: encontrar a interseção entre a música gospel clássica, o blues clássico e o southern rock. “Nobody Love Me Like Jesus” é a música para se cantar na igreja, mas também na rua, no carro, onde quer que seja, desde que haja mais de duas pessoas para fazer o coro. O órgão que abre “Loves Me Like a Rock” é gospel total. Já o andamento da faixa, junto com os backing vocals, remetem à soul music quando esta ainda estava dando seus primeiros passos. Eu especialmente me lembrei de canções antigas do Solomon Burke que eu adorava ouvir quando mais novo.

“Gonna Be There With Me” é o melhor do southern rock da banda, com guitarras diretas ao ponto e um solo blueseiro de piano no meio. “Leave This World Behind” é uma das melhores faixas, que cresce conforme vai passando o tempo e com interpretação bastante cativante do vocalista Mac Powell. A bluesy “New Creation” tem um ritmo marcante que vai te fazer bater palmas para acompanhar. Na versão de luxo do álbum temos duas faixas extras: “You Redeemed Me” e “The Return”. Ambas são ótimas e ficam no nível do resto do disco, o que mostra que a inspiração da banda continua altíssima e não precisaram de fillers desnecessários.

Sabemos que o gospel e o blues possuem ancestrais comuns dentro da tradição musical popular americana. O Third Day revisitou o aspecto clássico da música do país, mas prezando por uma paleta diversificada da época em que os estilos ainda formavam uma espécie de pangeia musical. O resultado foi um álbum difícil de rotular, mas que passeia pelas referências sonoras com uma tranquilidade impressionante. Eles trazem um pouco mais do southern rock que é a marca da banda, só que sujando um pouco mais o estilo com a poeira da estrada, do blues e soul e purificando os pés com a espiritualidade do gospel. Um disco de cores quentes nas bordas e um tom alvo no centro.

Revival foi gravado ao vivo como o Third Day nunca tinha feito antes, justamente para captar o feeling e a energia característicos da união dos instrumentistas tocando ao mesmo tempo. Isso foi fundamental para que a banda conseguisse um som tão vivo, vigoroso e intenso, até mesmo nos momentos menos roqueiros.

Quando se fala em southern rock, muitos pensam em Blackberry Smoke – merecidamente! -, como um dos principais do estilo em nossos dias. E com discos como Revelation (2008), Move (2010) e este Revival, o Third Day pode sim ser apontado como o grande representante cristão do estilo. Eles não soam tão caipiras quanto o BS e se mantêm fiéis ao ideal cristão que os diferencia, mas mesmo assim possuem características de banda grande e que merecem respeito dentro do gênero.

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