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Guilherme Arantes – Flores & Cores (2017)

O equilíbrio entre o romantismo e a sofisticação

Por Gabriel Sacramento

Os românticos tendem a dar vazão ao sentimentalismo, à emoção, ao predomínio da expressividade e à liberdade que leva à libertação. Na música, muitos artistas abrem mão da tentação de abordar temas complexos, que estão em voga, para viajar às profundezas da alma, buscando sentimentos e anseios. Alguns não sabem como manter uma preocupação com a forma sem sacrificar a expressão, já outros dominam totalmente essa arte. E quando o ser romântico (expressão) encontra o ser musical (forma) há uma conexão simbiótica, que faz fluir a arte mais pura e singela. Assim é Guilherme Arantes, um cara que encontrou o equilíbrio entre o romântico e o musical e vem aplicando esse equilíbrio em seus álbuns.

O jovem senhor das trilhas para as novelas surgiu lá nos anos 70, com uma pinta de galã, um piano e um som que unia o roqueiro pianístico ao semilúdico, que o fez ser comparado a Elton John. (Aliás, o Elton John é sempre uma boa referência e a imprensa adora comparar o cara com outros artistas. Se nos EUA, foi o grande Billy Joel, aqui é o Guilherme Arantes). Arantes hoje anda por aí, aos 63 anos, sempre fiel às suas ideias, opiniões francas e fortes, acerca da música mundial, MPB, enquanto busca ainda entregar álbuns interessantes aos fãs. Gosta do Justin Bieber, da Adele, elogia o Timberlake e diz que o Tiago Iorc é como ele era no início. Olha para o hoje de cima tentando extrair conclusões e, quem sabe, algo para aperfeiçoar sua arte.

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No ano passado, fui a um show do Arantes. Enquanto assistia o público cantar em coro as músicas românticas que ouviram na TV, pude perceber como ele e sua banda soavam entrosados, consistentes e classudos no palco. Durante o intervalo entre uma faixa e outra, ele vinha com seus comentários cheios de humor e gratidão. Quando a sonzeira recomeçava, lá vinha novamente a sensação de estar no meio de algo quase transcendental, uma concentração de energia sônica gerada pela união sinérgica dos músicos. O resultado foi quase uma viagem no tempo para a era de ouro dos hits como “Meu Mundo e Nada Mais” e “Cheia de Charme”. Viagem direta e sem pausa para descanso.

Seu novo disco chama-se Flores e Cores e é seu primeiro registro de inéditas em quatro anos. “Árvore da Inocência” dá as boas-vindas ao ouvinte, que sem perceber, já se pega totalmente apaixonado pelas melodias azuladas, que surgem no meio de uma base cheia, com instrumentos muito próximos, que geram uma (boa) sensação de enclausuramento. É como se estivéssemos presos com tudo o que precisamos no momento. A faixa-título possui uma vibe quase tropical, alto-astral e nostálgica. “Sodoma e Babel” segue uma onda mais lisérgica, mas apoiada naquela sensação de enclausuramento já citada, em vocais mais graves e harmonias cambaleantes. A pianística “Jardim do Éden” – cujo início piano + cordas lembra “Um Dia, Um Adeus” – segue a ideia de sofisticação harmônica que Arantes adora trazer em suas canções. “Happy Days” é a melhor faixa do álbum. Possui várias modulações tonais e a melodia vai acompanhando, subindo e voando. Temos ainda a belíssima “Semente da Maré” que, sem dúvida, se fosse em outros tempos estaria tocando na novela mais assistida do momento. A faixa tem a cara do compositor e seu jeitão de fazer as baladas soarem grandiosas. A letra, sobre a situação dos refugiados, é tocante.

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Quando perguntado sobre o novo álbum, o cantor disse que seria lisérgico, nostálgico e que traria uma veia mais emocional, não politizada, que segundo ele, é o que o Brasil precisa no momento. Em suas entrevistas, ele deixa claro o quanto gosta de ser um representante da música dos anos 80, do pop que namora com o rock, sempre guiado pelo piano forte. O músico acha que esse tipo de música se perdeu em algum momento no tempo e está disposto a resgatá-lo.

É fato que ele ainda consegue fazer hits excelentes, que possuem no DNA as mesmas idiossincrasias dos seus clássicos. Assim como Elton John, ele mostra que acredita no formato que o consagrou e na fórmula que deu certo no século passado, depositando suas fichas nisso. Flores e Cores é a confirmação do óbvio: um artista que nunca perdeu o jeito de fazer boa música trazendo uma porção de boas músicas. Sua preferência pelas harmonizações bem elaboradas e pelo poético e quase platônico romantismo – que ele chama de sofrência – são contagiantes à medida em que soa totalmente convincente.

“Um popular impopular”, como uma vez descreveu o Jô Soares, que fica no limite entre o famoso/importante/influente e o totalmente esquecido e desvalorizado. Guilherme Arantes, assim como outros artistas de sua geração, pertence à safra dos que devem ser descobertos pelos mais jovens, para que se perceba que quando misturamos romantismo e música bem feita o resultado pode ser belíssimo. Belo, humano, carnal, mas que beira o transcendente.

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