2017 Eletronica Indie Pop Resenhas Trilha Sonora

Heaven – Lonesome Town EP (2017)

Projeto misterioso fica na fronteira da trilha sonora e do synthpop. Podia até tocar em Twin Peaks

Por Lucas Scaliza

Quem está acompanhando a maravilhosa terceira temporada de Twin Peaks já sabe que há pelo menos uma banda tocando no Roadhouse (o bar da cidade) por episódio. O Nine Inch Nails já passou por lá, assim como o Au Revoir Simone (duas vezes), Sharon Van Etten, Hudson Mohawke e até o Moby aparece rapidinho com guitarra na mão acompanhando a incrível performance vocal de Rebekah Del Rio. São sempre artistas e canções que combinam com o clima do lugar e da série, cheios de sintetizadores, teclados e uma beleza meio fria, meio melancólica.

Heaven não passou pelo palco do Roadhouse, mas David Lynch (diretor da série e um de seus criadores) certamente aprovaria a cantora, que lançou um curto EP de cinco faixas, Lonesome Town, que é digno de nota, da capa até a última faixa. Há muito do synthpop do Chromatics – uma das bandas preferidas de Lynch, que também é músico – e a produção é de Johnny Jewel, figura do selo Italians Do It Better que o diretor aproveitou também na série.

É triste, mas sei muito pouco sobre Heaven, se é uma cantora ou um grupo e nem se a loira que aparece na capa do EP, e que lembra a Brigitte Bardot, é uma integrante ou se não tem nada a ver com o grupo. Só conhecemos de fato as músicas que estão no EP, todas no limiar entre a trilha sonora e a canção pop e eletrônica retrô.

“It’s Not Enough” é o carro chefe do trabalho, já apresentando uma simplicidade harmônica, mas uma produção esmerada de sons tridimensionais. “Lock & Key” é viajante e aveludada, rica em sintetizadores, como diversas canções que já figuraram nesta temporada de Twin Peaks. “Lonesome Town”

“Blood On The Tracks” é praticamente uma trilha, mas é a faixa mais impactante do EP. O vocal apenas fala conosco, com uma voz que entra com aquele irresistível mistura de sensualidade e mistério. O trabalho musical por trás completa a fantasia e nos convida a experimentar uma sensação de sonho desperto. Uma faixa que usa o áudio para evocar imagens e sensações táteis e até palatáveis. Ah, e sem em nenhum momento cair na nostalgia barata, mesmo confiando em timbres vintage de teclados e sintetizadores.

Estamos em uma época em que a música tenta ser bastante cinematográfica. É o caso do retrô de Lana Del Rey, por exemplo, que embora faça canções, sempre carregam um quê de dramaturgia. O pós-rock do Mogwai também tem se revelado mais preocupado do que nunca com as paisagens sonoras, como ilustra tão bem seu recém-lançado Every Country’s Sun. E até na trilha sonora de cinema temos uma aproximação com o formato de canção pop, como John Carpenter há 30 anos ou a atual produção de Cliff Martinez para filmes como Drive (2011) ou Demônio de Neon (2016).

Nesse contexto, Lonesome Town coloca Heaven exatamente na intersecção entre os dois formatos e intenções. É fácil perceber, no entanto, que a banda (ou a artista) se dedica em fazer mais canções de fato, mas as bases musicais derivam tanto do que poderia ser usado como trilha que fica impossível não pensar em imagens acompanhando cada canção. Prova disso é a naturalidade com que a versão instrumental de “It’s Not Enough” cai em nossos ouvidos no fim do EP.

Heaven é um nome para ficarmos atentos. Queremos mais informações sobre o projeto misterioso de Jewel e já queremos mais músicas.

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