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Tribalistas – Tribalistas (2017)

A sintonia e dependência musical em favor da MPB

Por Gabriel Sacramento

Eles estão de volta. A tríade/trinômio/trindade/trímero/trio composta por Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes presenteou seus fãs com mais uma obra completa. Segundo Antunes, não são canções diferentes do álbum anterior, como uma banda que tenta se reinventar, mas sim uma continuação natural de 2002, que foi um sucesso no Brasil e em outros países, como Portugal.

Quando Marisa Monte se uniu aos outros dois artistas – que já eram seus parceiros de composição e já tinham figurado em seus álbuns solo -, tivemos um dos eventos mais interessantes da MPB no atual século. Um supergrupo, unindo experiências e talentos musicais únicos, mas com espectros, cores e identidades diferentes. Marisa com seu jeito delicado e melodioso de ser, mas forte ao mesmo tempo; Brown com seu arsenal percussivo, enfatizando o ritmo; e Arnaldo com seus poemas declamados e sua voz grave e firme. Os três unidos formaram um grande time, em que cada característica particular era destacada ao mesmo tempo que se dissolvia no todo.

RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 24-08-2017, Retrato dos Os Tribalistas que lancam o segundo cd depois de 15 anos. Copacabana, Rio de Janeiro. (Foto: Zo Guimaraes/Folhapress, FSP-ILUSTRADA) ***EXCLUSIVO FOLHA****

O novo álbum foi gravado no Rio de Janeiro com produção comandada pela Marisa Monte (assim como seus discos solo). Teve participação de Dadi Carvalho (vizinho de Marisa e braço direito musical em sua empreitada solo) e de uma cantora portuguesa chamada Carminho, entre outros músicos. A mixagem e masterização ficou com Daniel Carvalho. Monte e Brown tocaram uma série de instrumentos, que incluem os convencionais e uns bem diferentes, como colher de pau, panelas, um instrumento chamado pau de chuva e – pasmem – um dissipador de calor. Se você achou a ficha técnica do disco do Apanhador Só – que a gente detalhou neste episódio do podcast – bem maluca, veja a dos tribalistas e surpreenda-se ainda mais. Eles seguem a filosofia de que é possível fazer arte com tudo que se vê pela frente, ressaltando que a musicalidade não depende principalmente do instrumento, mas do instrumentista.

Faixa a faixa

Diáspora: Percebemos que Marisa trabalhou para obter uma delicadeza mais próxima da sua carreira solo e diferente do primeiro álbum, com percussões mais diluídas. É sobre os refugiados e descreve bem a situação triste em que muitos se encontram atravessando lugares diferentes e deixando entes queridos para trás.

Um Só: Composta pelo trio e pelo filho de Antunes, segue a ideia de ser mais limpa no arranjo, sutilmente atacando políticos na letra, enquanto proclama a união entre as pessoas.

Fora da Memória: Ritmo lento, conduzido levemente pelos violões e pelas harmonias vocais típicas, com uma letra bem elaborada e melodia marcante.

Aliança: A melhor faixa do trabalho, que poderia ser da carreira solo de Marisa e do álbum anterior também. Melodia lindíssima, letra sobre a união entre dois amantes. Um potencial hit.

Trabalivre: Canção sobre o trabalho e as obrigações diárias de toda pessoa que sai de casa a fim de vender sua mão de obra. Tem um ritmo gostoso, calibrado cuidadosamente pelo Brown, mas leve e controlado, com certeza, pela produtora no comando.

Baião do Mundo: Tocando na questão da seca que assola diversos lugares do Brasil, a canção tem ritmo acentuado mais uma vez, mas sem tanta ênfase na mix. É incrível como eles conseguem fazer a voz suave da Marisa se encaixar bem em um contexto dançante e fortemente percussivo.

Ânima: Letra que aborda o fato de virmos ao mundo sem nada e não levarmos nada dele. Um convite a uma vida leve, sem preocupações, o que casa com o instrumental enxuto, com percussividades implícitas que surgem aos poucos.

Feliz e Saudável: Essa também é dançante, pra cima e romântica.

Lutar e Vencer: Uma música feita especialmente para os estudantes que fizeram protestos contra o governo ocupando escolas no ano passado. Uma bateria com um groove certeiro, quebrado e marcante – créditos ao Carlinhos Brown.

Os Peixinhos: Infantil, quase natalina, tamanha delicadeza, que mais uma vez, remete bastante à Marisa solo, mas também a muito da produção mais lúdica de Antunes. Aqui, temos a voz da cantora Carminho.

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A volta dos Tribalistas é excelente. Temos mais do mesmo frescor do primeiro álbum, só que não necessariamente sendo mais do mesmo. O trabalho mostra o trio menos apressado, mais tranquilo e de férias – assim como disse Antunes em uma entrevista. Predomina o clima despreocupado, alegre, relaxado, mas também romântico e engajado socialmente. A tranquilidade que gera a leveza do álbum não impediu o grupo de falar às pessoas acerca de assuntos importantes que estão quentes no momento, apenas afetou a forma como fizeram isso: com amor, calmaria, não tentando impor seu ponto de vista aos ouvintes, mas levando-os à reflexão.

O fato de estarem de volta em 2017 diz muito sobre a música nacional. Em tempos de críticas à nossa música por causa dos gêneros ultracomerciais que estão em voga, os três grandes músicos resgatam um valor da MPB que não se perde. Uma MPB crítica, forte, melódica, que exalta o amor, a unidade, a singeleza, a vida e que ainda tem valor comercial. Assim como no álbum de 15 anos atrás, a sintonia e dependência musical entre o trio em perfeito estado, fazendo o álbum fluir bem por nossas cabeças como um rio correndo para o oceano. Um álbum para ser lido, ouvido e sentido.

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5 comentários em “Tribalistas – Tribalistas (2017)

  1. Graças a Deus novamente Tribalistas !!! Música boa pra essa moçada entender o que realmente é uma música bem trabalhada….

  2. Feliz e Saudável:
    minha preferida!!

  3. Aliança é show de bola… muito bom tribalistas…

  4. quando vc usa uma foto vc tem sempre que colocar o credito do fotografo. Principalmente nao sendo foto comprada por vc e sim usada da internet.

    • Oi, Anônimo. VOcê te razão. Falha nossa. Algumas imagens são cedidas pela própria banda e suas assessorias como livres, chegam até sem os créditos. Mas é claro que alguém foi o responsável pela imagem e mesmo sem a obrigação, deveríamos colocar o nome.
      Obrigado pela crítica, vamos nos atentar melhor a isso.

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