2017 Rock

Brand New – Science Fiction (2017)

Em possível último disco da banda, Brand New fica acessível, mas não perde a essência

Por Gabriel Sacramento

Eles têm o disco mais vendido dos Estados Unidos no momento. Um feito e tanto para uma banda independente. Mas o que exatamente eles fizeram para alcançar isso?

Primeiro: vamos entender que a banda já estava bem na boca dos críticos e fãs desde o seu disco de mais de dez anos atrás, o ótimo The Devil and God Are Raging Inside Me (2006), que unia bem indie rock e post-hardcore/emo. O Brand New chegou a ser considerado um dos mais influentes da década com este álbum e certamente balançaram as estruturas da cena emo naquele momento. Nenhuma banda chega ao topo das paradas do nada.

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Segundo: o novo álbum, Science Fiction, é o glorioso retorno de quem tinha parado de compor e há oito anos não lançava álbum novo. Quem não adora um retorno de quem estava bem quando parou? Outro fato importante: a parceria na produção com Mike Sapone foi mantida, que está com eles desde o primeiro disco, lá em 2001 – um produtor que entende a banda perfeitamente e que se tornou quase um membro extra da equipe.

Science Fiction é mais límpido que os anteriores, não tem a pegada tresloucada de The Devil… e nem a fuzzeria de Daisy (2009). O que temos é uma banda focada em uma sonoridade mais amigável, acessível para diferentes tipos de ouvintes, embora mantendo o jeito esquisito e desajeitado de fazer isso. “Can’t Get it Out” é uma boa demonstração do que quero dizer: sonoridade divertida, tem espaço para guitarra limpa e suja, quase um Kasabian, só que com mais distorção e mais quadradinho. A distorção aqui, assim como no resto do álbum, não é usada como elemento indispensável, mas sim de uma forma mais artística, como se fosse a cereja do bolo. The Devil… também tinha isso, mas trazia um feel soturno, que está em falta em boa parte de Science Fiction.

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“Waste” tem violão no início, andamento lento e uma certa beleza intrínseca. “137” começa com dedilhados de guitarra limpinha, vocal melancólico, cabisbaixo e demora a engrenar, sendo que só no final ganha corpo e peso, quase como uma redenção de quem encontrou a solução da desesperança nas distorções. “Out of Mana” é inundada de guitarras, com direito a um pequeno solo. O final diferente, que é uma marca da banda, é um ótimo easter egg para os fãs mais antigos. “451” é empolgante, torta e agressiva. Na abertura, temos “Lit me Up”, uma faixa longa, enigmática, sombria, com vozes em um diálogo no início e que funciona bem como uma introdução a um álbum que não é totalmente pop, nem totalmente agressivo.

Seja falando da luta contra a depressão ou de fundamentalismo religioso, percebemos que a banda continua bem sincera e bem determinada a expressar seus ideais corajosamente. O título do álbum não foi em vão. Temos faixas como “451” que é uma referência direta ao Fahrenheit 451, clássico da literatura de ficção científica e “137”, que é especulativa sobre um possível fim do mundo pelas guerras, o que lembra as narrativas do gênero também. Há também uma clara referência ao filme Dr. Fantástico (1964) do sensacional Stanley Kubrick, com a frase “God told me to love the bomb” ao final da canção.

Há quem odeie o álbum por ser diferente dos anteriores e mais “comercial”, mas julgar a qualidade de um álbum só por ser mais limpo é ser simplista demais. Tudo está em seu devido lugar e a banda não se entregou totalmente ao desejo de sucesso. Ainda há essência artística no núcleo do que produzem. Talvez não seja o álbum perfeito para quem ainda não conhece a banda, pois ele não define com precisão o que é e o que o Brand New pode ser, mas pode servir como um primeiro contato para levar os ouvintes a navegarem mais fundo na discografia do grupo. Além disso, não estamos falando de uma banda que sempre fez o mesmo tipo de som: eles começaram com uma veia mais pop punk rihappy nos dois primeiros e evoluíram para algo mais maduro, soturno e post-hardcore no terceiro e quarto.

Há rumores que asseguram o fim da banda em 2018. Então, Science Fiction seria um álbum de reunião e um possível canto do cisne ao mesmo tempo. Mesmo não sendo sensacional, tem seus bons momentos, entretém bem o ouvinte e traz uma linguagem não tão comum, embora acessível. A despeito do álbum não ter sido o melhor que poderiam ter feito, o quarteto pode se aposentar com a sensação de trabalho cumprido, de ter feito barulho e de ter chamado a atenção para o poder da música independente.

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2 comentários em “Brand New – Science Fiction (2017)

  1. Pingback: LCD Soundsystem – American Dream (2017) – Escuta Essa!

  2. Álbum magnífico, uma epopeia do tédio ao suicídio, certamente o melhor álbum do ano.

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