2017 Resenhas Rock

LCD Soundsystem – American Dream (2017)

Queria um hit? É assim que eles fazem hits

Por Gabriel Sacramento

Mais um grande retorno em 2017. Depois de anunciarem a parada, investirem pesado em toda a divulgação do show que seria o último – no Madison Square Garden, gravado em 2011, lançado em 2014 -, James Murphy e cia. voltaram à ativa e com um álbum de inéditas de cara, American Dream. Também vai rolar turnê e vão aparecer em terras tupiniquins no Lollapalooza 2018. Inicialmente, Murphy desejava retornar com um álbum solo, mas depois de consultar os companheiros de banda, decidiu que seria um lançamento do LCD Soundsystem, o quarto álbum da carreira em mais de dez anos.

Como disse no texto sobre o Brand New, retornos podem ser vantajosos do ponto de vista comercial. É algo que vem acontecendo com bandas de todo o mundo. Por isso, há até quem questione qualquer tentativa de término de carreira, alegando que isso seria só mais uma estratégia para se promover comercialmente. No caso do LCD, no entanto, parece ter sido sincero. Quem acompanha James Murphy nas redes sociais e viu as entrevistas sabe disso.

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O que então motivou Murphy a voltar com a banda? Segundo ele, foi David Bowie quem o convenceu, depois de várias conversas com ele sobre a carreira durante as gravações de Blackstar. Murphy diz que Bowie o ensinou a se manter desconfortável, pois enquanto estivesse assim ele produziria melhor. Murphy conclui que Bowie sempre foi assim em toda sua carreira e isso permitiu que ele se tornasse um ícone da indústria. Além disso, Bowie é uma referência musical para o álbum também: dá pra sacar vários elementos que remetem à fases diferentes da carreira do inglês.

Houve uma tensão absurda sobre esse novo lançamento, pois muitos fãs ficaram desapontados pelo fato de terem se esforçado para ir àquele show do Square Garden. Isso fez com que a banda quisesse fazer algo bem surpreendente, dar o melhor de si para marcar o tal retorno. O álbum foi produzido pelo próprio James Murphy, que também tocou uma série de sintetizadores, baixo, bateria e cooperou com a mix.

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A fórmula sonora que inclui uma inusitada mistura de música dançante, indie rock e punk permanece inalterada em American Dream. “Oh Baby” já começa com timbres industriais que lembram o Depeche Mode no último álbum e o Vince Staples no seu hip hop fora da caixa. Ela começa lenta e mesmo que ganhe mais contornos instrumentais, continua  bem contemplativa e com o mesmo andamento. “Other Voices” aposta no groove do baixo e em elementos percussivos espertos dando as caras intermitentemente. É a primeira mais dançante.

“Tonite” é uma celebração dos velhos dias da disco music, no jeitão James Murphy. O timbre maravilhoso de sintetizador é só um dos ótimos timbres que temos nesse álbum – o que mostra um trabalho criterioso na escolha de cada instrumento a ser usado. A roqueira “Call The Police” é uma das canções mais envolventes do repertório, com linha de baixo direta bem ao estilo das bandas de indie rock da década passada. A abordagem da guitarra com dedilhados ocasionais, dialogando com o baixo forte, que sustenta a música, lembra muito Strokes e Interpol. O baixão groovado também comanda “Change yr mind”, que chama você para dançar, mas meio que timidamente, com vocais graves, que lembra o Bowie da época do Let’s Dance (1982). A melhor faixa vem quase no final: “Emotional Haircut”, com guitarras descaradamente distorcidas, mais uma linha de baixo excelente, uma levada de bateria inquieta e vocais de fundo bem hardcore punk, daqueles que lembram “Drunk Girls” do álbum anterior. O final desta demonstra que acima de tudo, o LCD é sim uma banda de rock, com pegada e atitude.

Analisando o cenário da música em 2017, percebemos que o LCD Soundsystem continua sendo uma das poucas bandas que conseguem te fazer balançar sua cabeça ao som de uma guitarra em um momento e dançar loucamente ao som de um synth em outro. A tranquilidade com que transitam de um para outro é sensacional, como uma boa montagem de cenas em um filme de ação. A banda continua sabendo administrar bem as influências, encontrando coesão e harmonia em todas as vertentes que mistura e atirando em direções diferentes, acertando em todas elas ao mesmo tempo.

As timbragens do álbum merecem um parágrafo à parte, porque são um dos elementos mais interessantes. Temos diferentes sintetizadores sendo utilizados, timbres mais industriais, outros mais nostálgicos, uma diversidade incrível como cores em um arco-íris. Eles ajudam o álbum a caminhar pelas distintas referências, bem como ajudam o ouvinte a se situar. Vale ressaltar que o mérito não é por utilizar essa diversidade simplesmente, mas por saber fazê-la funcionar e dar significado ao álbum.

Para os caça-hits, o álbum novo não tem uma “North American Scum” ou “Daft Punk is Playing in My House”. Mas em vez dos singles super poderosos, a força está no conjunto da obra, no todo que soa interessante e agradável de ouvir mesmo com mais de uma hora de duração. Murphy e cia. mostram uma consistência formidável em toda a carreira e American Dream é mais uma confirmação de que a banda é uma das coisas mais interessantes que apareceram no mundo do rock nos últimos anos. Um dos melhores álbuns de uma banda que só faz melhores álbuns.

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2 comentários em “LCD Soundsystem – American Dream (2017)

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