2017 Indie Resenhas Rock Trilha Sonora

Les Discrets – Prédateurs (2017)

A mesma alma em um corpo diferente

Por Lucas Scaliza

As guitarras rápidas e massacrantes do disco Ariettes Oubliées (2012) tinham muito a ver com a cena metal da França, em especial com uma técnica de mão direita rápida também bastante empregada pela banda Alcest. Mas dessa vez, os franceses do Les Discrets encaram uma mudança sonora que deixa Prédateurs mais reflexivo e menos agressivo, menos convencional e muito mais art rock. O Ulver surge na mente como uma grande referência ao longo de todo o álbum, em cada riff, pausa e escolha de efeito vocal.

A própria banda admite a mudança em favor de um som que consiga evoluir artisticamente e explorar novos territórios. Saíram assim do shoegaze, dos laivos de metal e de post-rock de álbuns passados para se encontrar maravilhosamente bem no que chamam de “dark indie rock com pegada eletrônica, incorporando inspirações do trip hop e de trilhas sonoras dos anos 70”.

les_discrets_2017

Enquanto a tríade que abre o trabalho é totalmente orgânica e art rock, “Vanishing Beauties” traz o sintetizador e as batidas do trip hop para o repertório da banda e “Fleur des murailles” é muito mais atmosférica. E fazem tudo isso com bastante sabedoria. Embora sejam influências bastante novas se comparadas aos álbuns anteriores do Les Discrets, caíram muito bem em todo o projeto de Prédateurs, que se pretende mais imaginativo e urbano. Cabe dizer também que nenhuma faixa, por mais trip hop ou eletrônica que seja, perde de vista a presença do espírito humano. Isso fica especialmente claro em “Les Jours D’or”, faixa que poderia ter sido criada facilmente apenas com sintetizadores e programação eletrônica, mas o grupo deu amplo espaço para as guitarras, a bateria e o baixo.

É um disco frio, sim, mas noir, misterioso – e é aí que sentimentos ainda mais a pegada de trilha sonora. O doom está sempre à espreita também, fazendo com que a banda mantenha a todo custo seu espírito. O som pode mudar, mas a essência permanece. O metal virou rock, o shoegaze deu espaço para timbres mais sintéticos, mas a melancolia, a urgência e a frieza continuam presentes e criando faixas tão boas quantos “Le Reproche”, “Les Amis de Minuit” e a balada “Rue Octavio Mey”. As guitarras são peça fundamental do álbum para manter este trem em movimento e sempre encantando. São ricas em textura e fazem dedilhados que realmente ficam entre o indie rock e a trilha sonora. Em “The Scent Of Spring (Moonraker)” você quase sente que o Les Discrets vai descambar uma última vez para o metal, mas não é o que acontece. O clima se impõe e segura nossa expectativa e atenção até o final, como se esperássemos mesmo o ataque do tal predador.

Há diversos sons a serem percebidos em Prédateurs que, provavelmente, serão melhor absorvidos se você ouvi-lo como foi criado para ser apreciado: com fones, a noite, durante uma viagem de trem, enquanto você olha pela janela. O álbum é realmente algo que te move para a frente, mas não no ritmo do trem, e sim no ritmo do mistério da vida.

O designer, diretor de animações e multi-instrumentista Fursy Teyssier, de Lyon, é o principal nome por trás do Les Discrets. Ele já tocou com Neige, do Alcest, numa banda chamada Amesoeurs, e já produziu artes para o próprio Alcest. Não só o som mudou, mas Teyssier também deixou a cargo do britânico Chris Friel, um artista que combina fotografia e pintura, a produção da capa e dos visuais que acompanham o novo trabalho.

Em 2017, o Les Discrets vai manter somente os fãs que se encontram no core dos sentimentos de seu criador. Quem gosta de música emotiva e sombria, não importa se guitarreira ou atmosférica. Aqueles que precisam da agressividade para curtir o som deverão debandar e se refugiar em Septembre Et Ses Dernières Pensèes (2010), o belo álbum de estreia.

les_discrets_Photo-by-Andy-Julia

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1 comentário em “Les Discrets – Prédateurs (2017)

  1. Pingback: Igorrr – Savage Sinusoid (2017) – Escuta Essa!

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