2017 Indie Pop Resenhas Rock

The National – Sleep Well Beast (2017)

A fera do casamento dorme em suavidade experimental

Por Lucas Scaliza

Depois de vídeos criativos e singles bonitos, começou o burburinho sobre Sleep Well Beast, sétimo disco da carreira do The National, ser um candidato a melhor do ano. Mal tinham vaticinado – com uma boa dose de fé – que A Deeper Understanding, do The War On Drugs, também seria um dos melhores, encontraram outra banda alternativa para apostar as fichas. Sinto em dizer que, por melhor que seja, Sleep Well Beast não estará no topo das listas.

É claro que essas listas, nos blogs pessoais ou nas revistas, ou em veículos de colaboração como o Escuta Essa Review, dependem muito do gosto de seus membros, mas qualquer crítico que “olhe por cima” o cenário percebe que o The National continua ótimo, fazendo ótimas composições e tirando o melhor da sensibilidade de cada membro, mas tudo remete demais a Trouble Will Find Me (2013) e, no melhor dos cenários, o novo disco apenas empata em graça e beleza com seu antecessor.

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Faixa após faixa é possível encontrar momentos em que seu corpo responde aos sons produzidos pelo grupo americano, mas pode ficar a impressão de sempre faltar algo transcendente. A região grave em que a voz de Matt Berninger se apresenta em “Nobody Else Will Be There” é suficiente para criar no ouvinte uma esperança de um trabalho emocionante, mas os sentimentos simplesmente não se aprofundam facilmente. Eles transbordam pelo álbum, mas não estouram na sua cara. “Guilty Party” chega lá, mas sozinha não pode dar ao álbum um título.

A delicada valsa “Dark Side Of The Gym” surge como outro destaque do álbum, contagiando desde o primeiro verso com sua melodia. “The System Only Dreams In Total Darkness” é uma forte candidata a melhor música do disco, revelando o melhor dos irmãos Aaron e Bryce Dressner em menos de 4 minutos. Aliás, a dupla de instrumentistas, responsáveis por todas as músicas, quebram de vez com as limitações de uma banda de rock, usando diversas camadas de instrumentos para enriquecer a composição, deixando a maioria dela com os pés na terra e o espírito etéreo, por vezes quase abstrato.

Mas se querem saber a verdade, Sleep Well Beast não precisa vencer corrida nenhuma e nem entrar em ranking de melhores do ano para valer a pena e ter seus méritos reconhecidos. A banda está ainda mais versátil, combinando balada e post-rock, texturas eletrônicas etéreas com pianos, melancolia e pequenas doses de experimentação. “Walk It Back” e a faixa-título provam isso sem precisar fazer estardalhaço. Além disso, qualquer letra soa como uma confissão na voz de Berninger, o que continua sendo um dos pontos altos da banda. Fazem tudo isso com mais segurança do que nos últimos dois discos.

Suavidade talvez seja uma boa palavra chave para associar ao álbum. Tirando as faixas “Day I Die” e a roqueira “Turtleneck”, praticamente todas as outras são construídas para funcionar sem precisar de grandes punches sonoros. Há dinâmica e há crescendos, mas nada explosivo ou feito para manipular suas emoções forçosamente. Em outras palavras, o disco parece, de forma geral, pleno como o momento de cumplicidade com o parceiro após o orgasmo. (Mas tem “Turtleneck” ali no meio para dizer que essa transa tem arranhões e puxões de cabelo também).

Em meio a essa plenitude madura da banda, às vezes será preciso procurar a emoção nos detalhes e na audição cuidadosa. Faixas como “Empire Line” e “I’ll Still Destroy You” podem facilmente se passar por canções chatas. Sleep Well Beast não tem efeito imediato em todo mundo. Com letras criadas por Berninger e sua esposa sobre um casamento em ruínas, mas que ainda é um casamento real, fica a impressão de ser uma obra íntima e que vai precisar da cumplicidade do ouvinte para ser melhor acolhida. Em um mercado de ouvidores de música tão desesperados pelo próximo hino, lacre ou melhor candidato a melhor do ano, essa fera do National pode ser desconsiderado em algumas listas. Mas não importa. Não é uma lista que ele deve ficar. É no coração mesmo.

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5 comentários em “The National – Sleep Well Beast (2017)

  1. o que cê sabe de música comercial?o diferenciar pra pouco comercial music it’s muita?todo single é um ápice de refrão?

    • Oi, Lima. Acho que música comercial, em tese, é aquela com maior potencial de agradar uma maioria, oferecendo pouco desafio. Não precisa de ápice no refrão, mas com certeza se tiver, ajuda a manipular as emoções. Quando a música apela muito para isso, dá até pra dizer que é ansiosa. Mas vai de cada caso.

  2. “quinto disco da carreira do The National”.
    Pesquisou direitinho hein…

  3. Pingback: Kamasi Washington – Harmony Of Difference EP (2017) – Escuta Essa!

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