2017 Resenhas Rock

Macaco Bong – Deixa Quieto (2017)

Norvana: como o meme delimita nosso pensamento

Por Eder Albergoni

 

Passei a tarde inteira de um domingo ensolarado bebendo Sprite trancado no meu quarto pensando e ouvindo música. Conheço o Macaco Bong desde o lançamento de Artista Igual Pedreiro (2008). Fiz o download legal e de graça no site da finada Trama, muito porque, talvez, havia ali Pata de Elefante e ruído/mm despontando no cenário instrumental brasileiro. Mas qual é o objetivo em desconstruir um disco como Nevermind (1991)?

Deixa Quieto começa gerando um estranhamento, uma expectativa por identificar o som que nossos ouvidos se acostumaram. “Smiles Nike Tim Sprite” tem som de Palco Cásper Líbero Virada Cultural 2010. E esse é o melhor elogio que eu poderia tecer. Porque, oras, o que é Nevermind senão o cheiro fermentado de mijo na entrada da estação de trem, misturado com o cheiro da erva que vem da muvuca da galera hipnotizada dançando em movimentos que, vezes lembram o bonecão do posto, vezes lembram bailarinos do Bolshoi sem coordenação nenhuma tentando pas-de-deux num chão de pregos e brasa quente. O álbum todo, acredite, segue por essa linha.

Quando girei a tampa do refrigerante e o gás fez o tradicional barulhinho, me perguntei se não seria mais seguro repassar o Nevermind original. Abri a Wikipédia, consultei a track list, procurei reviews da época e textos do Zeca Camargo. Me concentrei em um relato de dois parágrafos da Spin que destacava “Territorial Pissings” como uma guerra total, “On a Plain” como uma linda melodia harmônica e “Breed” como uma canção realmente legal.

macaco_bong_2017

Em Deixa Quieto, “Território Piercing” tá mais pra um cachorro farejando um campo minado procurando um lugar seguro pra enterrar seu ossinho. Mas você já imaginou como essa história acaba. “Móviaje” me lembrou uma jam redhotchilipepperiana, da estirpe Guns N’ Roses tocando “Sunday Bloody Sunday” no Rock in Rio Lisboa. É algo que não faz o menor sentido, né? Mas que veste uma carapuça um tanto mais relaxada. “Breed” não é uma canção tão legal, mas enfim percebo que um fator positivo da recriação sem configurar tributo é que esse é um dos momentos em que um disco se distancia do outro. O que será que a Spin diria?

A música tem seus discos definitivos. Ou nem tanto, visto que não se sabe ao certo nem se o Nevermind de verdade consegue de fato reunir tribos e tipos diferentes. Mas então o que acontece com discos que marcam uma geração e tendem a se tornar atemporais? Fica o sentimento de uma inconveniência muito bem-vinda que, se aproveitada com parcimônia, pode até sair completamente da linha que o resultado será no mínimo exótico.

No entanto, uma coisa chama muita atenção e se revela a trilha sonora de um filme de terror. “Com Easy ou Uber” ganha uma interpretação bem mais passional devido aos últimos acontecimentos ocorridos no transporte público de SP. Que é algo muito corriqueiro em todo canto em qualquer parte do mundo. Por sinal, a letra de “Come as You Are” é a linha fina que confirma a derrota e o descaso com a trama da vida real. É tão somente uma tragédia.

O Macaco Bong encabeça e se apresenta muito bem no seu nicho, mas a gente sabe que significa muito pouco como audiência. Essas ações paralelas não são tão transgressoras como as originais, embora o nome do disco e os títulos das músicas sejam realmente ótimas sacadas e até um jeito de atualizar um conteúdo pra lá de especial. Porém não vai servir pra convencer jovens incompreendidos e com raiva. Acho que no fundo o que o Macaco Bong quer é que todos continuem ouvindo Norvana.

O meme vai continuar valendo por gerações. E quanto a todo resto, acho que havia Deus apontando uma lupa pra Seattle esperando o sol aparecer. Arrotei.

 

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