2017 Folk Pop Resenhas

Jake Bugg – Hearts That Strain (2017)

O garoto mudou de novo. E dessa vez pra pior

Por Gabriel Sacramento

Quando surgiu em 2011, o garoto Jake Bugg chamou a atenção de muita gente: visual arrumadinho, penteado estilo Justin Bieber, mas com um som retrô – combinação que lembra os Strypes. Sua musicalidade deixava evidente que suas referências eram outras, de muitas décadas atrás, inclusive. Chegou a ser chamado de “novo Bob Dylan” e de “Bob Dylan disfarçado de Justin Bieber”, tamanha a veia intensa folk rock anos 60 que dominava o som do jovem cantor, na época com apenas 17 anos. Todos esses fatores causaram uma certa curiosidade com relação ao futuro.

Seis anos depois, o penteado continua o mesmo, porém a carreira passou por algumas guinadas. Depois do primeiro álbum, Jake Bugg (2012), que já era bem legal, ele chegou ao ápice da carreira com Shangri La (2013), pilotado pelo Rick Rubin. As características peculiares do cantor que foram apresentadas no debut foram aperfeiçoadas no segundo, junto com uma ótimo trabalho de captação e mixagem, que resultou em um grande álbum de folk e rock. O terceiro, On My One (2016), trouxe uma repaginada no seu som. Já o disco mais recente traz uma mudança bastante significativa.

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Hearts That Strain foi gravado em Nashville, por músicos do Tenessee, de lá do American Sound Studio, que gravaram com ninguém menos que Elvis Presley. A produção foi comandada por Dan Auerbach, que também tocou guitarra em duas faixas. O disco também conta com a voz da irmã de Miley Cyrus, Noah, em uma das canções.

O álbum tem sérios problemas com relação à energia. Diferente dos melhores momentos de Shangri La e até dos mais fortes do álbum de estreia, temos canções minguadas, que quando tentam avançar para o campo do rock falham em apresentar atitude. “Burn Alone” – com a guitarra de Auerbach – é afetada por essa falta de algum elemento decisivo para aumentar a voltagem. Mas a falta de energia não prejudica só as canções mais roqueiras. Faixas como “How Soon The Dawn” e “Indigo Blue” também carecem de dinamismo, de vitalidade, de crescendos que poderiam ter dado mais cores a esse todo que beira o cinzento.

Mas o álbum também acerta em alguns momentos, que funcionam melhor como canções isoladas, diga-se de passagem. “Southern Rain” é um bom exemplo de como Nashville foi importante para que Bugg conseguisse um som mais rural. A melodia, o vocal, os elementos instrumentais de fundo, tudo parece funcionar bem e temos uma boa faixa de country, embora nada inventiva. “Waiting”, que tem os vocais de Noah Cyrus, é uma boa balada country que flerta profundamente com o soul clássico e o contraste de vozes é interessante. A faixa-título até que poderia ter sido melhor se fosse reduzida ao formato voz e violão, assim como nos velhos tempos na carreira de Bugg, pois a ambientação e os instrumentos adicionais, na verdade, não são tão significativos. Temos ainda “In The Event of My Demise”, que aproxima o country de algo mais psicodélico, mas feito rusticamente, como antigamente mesmo. É como se o Willie Nelson pegasse ácido emprestado do Jimi Hendrix para tomar antes de compor uma música.

A produção de Auerbach soube conduzir Jake Bugg em uma viagem nostálgica por um estilo que ele ainda não tinha explorado dessa forma em sua carreira: o country. No entanto, a produção também cometeu erros nas escolhas inadequadas com relação às performances e à mix do trabalho. Os instrumentos se sobrepõem muito, não são tão bem definidos e isso pode prejudicar a curtição do ouvinte. Também não temos timbres memoráveis, com exceção da voz do cantor que está bem captada e tratada como sempre.

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A capacidade vocal de Jake Bugg é limitada. Sua voz não é “bonita” – no sentido mais comum da palavra -, mas sim esquisita, tosca e aguda. A diferença do amadurecimento natural está quase imperceptível e quando ele tenta cantar faixas mais românticas, acaba não conseguindo alcançar a conexão com o ouvinte que uma música desse tipo precisa para funcionar. Já quando tenta algo mais folk e country, sua voz parece melhor colocada e não incomoda tanto.

Hearts That Strain é o pior álbum do inglês, ficando facilmente atrás até do super criticado On My One. Mesmo nos momentos mais ruins do álbum anterior, tivemos energia, seja quando ele tentava soar dançante ou quando buscava um som mais britpop. O novo álbum abandona as divagações estilísticas do anterior, o som roqueiro marcante do Shangri La e a pegada “trovador moderninho” do primeiro. Avança em uma direção definida, mas o faz com canções cheias de clichês batidos e pouco conforto com as escolhas sonoras. Mesmo que experimente gêneros diferentes, é monocromático na abordagem deles. Para quem já odiava o som dele, um prato cheio. Para quem curtia, um grande desapontamento. Resta ao crítico a frase-padrão para terminar os textos: vamos ver o que será dele no futuro.

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