2017 Pop Resenhas

Susanne Sundfør – Music For People In Trouble (2017)

“Art pop barroco” nunca definiu tão bem um disco

Por Lucas Scaliza

Music For People In Trouble é como um labirinto. Tem pop, aproximações com o canto lírico e baladas acústicas. Saem as batidas eletrônicas e os sintetizadores, ganham espaço piano e violão. Visto como um todo, ele faz contornos e se recusa a seguir uma linha reta. É como se a cada canção, a norueguesa Susanne Sundfør virasse uma esquina que levasse a outra seção do labirinto. E assim cada faixa é uma virada e o ouvinte passeia por contextos muito diferentes.

Essa impressão não se dá porque as músicas em si sejam muito diferentes umas das outras. É certo que Music For People In Trouble tem uma unidade estética bem distinta de Ten Love Songs (2015), mas você reconhece Sundfør em cada canto, caso já tenha familiaridade com pelo menos metade de sua discografia. A impressão fica por conta do tracklist, da forma como a sequência de músicas foi arrumada. Ouvi-lo na ordem proposta ou em ordem aleatória deve render a mesma sensação labiríntica. Não deixa de ser um elemento experimental.

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Sua única guia é a voz da norueguesa, linda e competente como sempre, que te leva do violão folk de “Mantra”, ao country levinho “Reincarnation”, chegando até a meditativa e quase religiosa “Mountaineers” (essa sim um mantra) lá no fim do disco. Mas passamos ainda pela voz e piano “Good Luck Bad Luck” (com direito a um solo de saxofone jazzista) e a balada folk “The Sound of War”, talvez uma das melhores canções acústicas de Sundfør, que também termina com uma intervenção estranha, lembrando os ritmos enervantes da trilha de A Bruxa, que vai se conectar com a faixa-título, cujo início mais parece um pedaço de um filme acrescentado à faixa.

É claro que a artista quis fugir da fórmula que deu certo no último álbum. Music For People In Trouble é introspectivo e pede sua atenção, muito mais do que tenta agarrá-la. A mesma mulher que grava um eletropop tão contagiante como “Never Ever”, com o duo norueguês Royksopp, é também a mulher que nos mostra como se interpreta uma canção. “Bedtime Story” é um jazz em que storytelling, vocal e arranjo têm o mesmo peso. Coisa rara de se ver. E logo em seguida, “Undercover” arrebata o ouvinte com todo o seu charme de musical e interpretação emocionante. “The Golden Age” coloca Susanne para cantar sobre uma base sintética que lembra uma orquestra, uma fronteira entre o pop e o clássico, o pós-moderno em si mesmo.

Essa fronteira já está na discografia dela há algum tempo e não é exclusividade do novo trabalho ou do anterior, de 2015, que, aliás, cruzava essa linha brilhantemente, evoluindo bastante desde o também ótimo The Sillicone Veil (2012).

O disco foi inspirado, em parte, pelo livro A Universe From Nothing, do físico Lawrence M. Krauss, que revelou à cantora como o universo é constituído, em sua maior parte, de nada. Em parte, a inspiração veio de uma longa viagem que ela fez pelo mundo para tirar fotos. Dessa experiência ela percebeu a grande mudança por que passa nosso mundo, uma mudança ainda em curso e que ninguém sabe onde vai dar. Daí venha, talvez, a impressão labiríntica da obra.

No fim das contas, é um belo álbum que demanda um pouco da paciência do ouvinte. Ela não aposta em refrãos fáceis ou temas musicais pegajosos. Madura desde muito cedo na carreira, soube se construir se esquivando do pop mais comercial, mas não o negando completamente. A definição de “art pop barroco” já empregada para tentar categorizar Susanne Sundfør cai como uma luva em Music For People In Trouble.

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