2017 Pop Resenhas

The Script – Freedom Child (2017)

Mais uma boyband com instrumentistas

Por Gabriel Sacramento

O Script é mais um desses grupos que parecem boybands, mesmo que rigorosamente não sejam, pelo menos não se você considerar o conceito mais comumente aceito de um grupo formado por vários cantores que não tocam instrumentos ao vivo. O grupo vem da Irlanda, e é formado por Danny O’Donoghue, Mark Sheehan e Glen Power. Juntos, fazem um pop/rock fofinho e direto, daqueles que fazem bastante sucesso hoje em dia. Em menos de dez anos, lançaram cinco álbuns. O mais recente é Freedom Child.

O novo álbum é super pretensioso, desde a arte da capa, o título e nomes das faixas. Uma primeira impressão que se tem, considerando esses fatores, mesmo sem ouvir, é que se trata de um álbum pop recheado de escolhas fáceis como o anterior, mas que possui força no conteúdo lírico e nos temas sérios que se propõe a tratar, estabelecendo um contraste instigante e curioso entre a superficialidade musical e o compromisso com a mensagem – assim como a Katy Perry com o clipe de “Chained to The Rhythm”, por exemplo. Mas a primeira surpresa é: essa impressão cai por terra quando realmente ouvimos o conteúdo do álbum.

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Foto: Andrew Whitton

E isso me decepcionou. Em tempos que álbuns pop têm se tornado previsíveis demais, a fé no gênero tem esvaído, um álbum com essas características traria bastante empolgação. Freedom Child, no entanto, é cheio de clichês sobre relações amorosas e outras pessoalidades, tocando em temas sérios ocasionalmente e sem a devida preocupação com eles. Em suma, o Script não convence o ouvinte da importância e da necessidade de se tratar os assuntos abordados.

“No Man is an Island” até fala de refugiados, mas correlaciona o conceito ao romantismo batido típico da banda. “Rock the World” é uma faixa motivacional, com escolhas musicais previsíveis. Tenta ser um hino para exaltação das capacidades humanas, mas falha. “Eden” traz referências teológicas – falando de salvação, céu, Éden, tentação -, mas faz pouco caso do que realmente esses conceitos representam, amarrando tudo mais uma vez ao romantismo barato e simplista. A faixa-título foi motivada por uma pergunta feita pelo filho do guitarrista Mark Sheehan sobre terrorismo. Por isso, a faixa possui uma ou outra referência a guerras e à necessidade de harmonia entre as pessoas, mas trata o tema com uma superficialidade absurda também, com frases inacreditáveis do tipo: “ponha confetes em uma bomba atômica”.

O ápice da pretensão é a faixa “Divided States of America”, que é uma declaração contra as mazelas sociais dos Estados Unidos pós-Trump e contra a desunião causada pelas diferenças de opinião na última eleição. A letra até que não é tão ruim, mas falta uma força ou crueza no instrumental que lhe dê melhor suporte. Me lembrou um pouco “Holy War”, de Here (2016) da Alicia Keys, que tinha uma letra crítica e um instrumental marcado por escolhas não convencionais que cooperavam com o tom mais sério do eu-lírico. “Divided…” é mais uma faixa lotada de clichês, como todas as outras, só que com uma letra mais interessante. Quem não for pesquisar de fato sobre a letra, quase nem saca qual o objetivo da banda e a intenção deles por trás.

Musicalmente, a banda abandona aquela lógica de inserir ideias mais bem elaboradas que apareciam entre as faixas comerciais, para assegurar uma certa essência artística, lógica que marcou os primeiros álbuns do The Script. Freedom Child não tem resquícios do rock com o qual a banda já flertou um dia, mas se entrega totalmente ao pop acessível das ideias comuns. Não há nenhum arranjo, timbre ou fill que seja memorável e prenda a atenção do ouvinte. É um instrumental pálido e como também não arrebata pelas melodias, a audição fica ainda mais difícil.

Se você for muito fã, pode até curtir. Se não for, não deve ser esse o álbum que vai mudar sua opinião. É mais um álbum que mostra como a banda tem se perdido e se tornado uma boyband com instrumentistas, sem nenhum atrativo a mais.

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