2017 Resenhas Rock

Scalene – Magnetite (2017)

Diga oi para o melhor álbum de rock nacional do ano

Por Gabriel Sacramento

Magnetite é sem dúvidas um dos melhores álbuns de rock nacional de 2017, pelo menos até agora. Digo isso pensando em talvez só um álbum que possa bater de frente com ele: Unlikely (2017) do Far From Alaska, que é um álbum pesado, intenso e encantador. Magnetite, no entanto, supera Unlikely por suas sutilezas, seus detalhes e pelo jeito de pensar o rock, uma concepção típica de bandas com décadas de experiência.

Mas eles só têm poucos anos de vida e nesses poucos anos, quase ganharam o programa Superstar da Globo, ganharam um Grammy com o último álbum, Éter (2015), e muita atenção. O natural é que a banda se tornasse mais comercial, para manter o sucesso e a boa fama, certo? Não neste caso. Depois de um disco de sucesso e muitos elogios, a ideia é fazer um álbum ainda mais arriscado, mas que leve a carreira para frente, que mostre às pessoas quem é a banda de fato e o que eles são capazes de fazer.

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Breno Galtier

Mas o que Magnetite tem que empolga tanto? Linhas melódicas acessíveis e cativantes? Não necessariamente e esse é um dos fatores que podem tornar a audição um pouco mais espinhosa para muitos, e é na verdade, um dos que mais me chamou a atenção e me fez acreditar na força do álbum. Ele não tem a pretensão de ganhar o mundo e estádios, mas se fizer as pessoas refletirem sobre o que fala e como fala, a missão estará cumprida. Mesmo sem as melodias grudentas e os hits, o Scalene ainda fala forte aos seus ouvintes com um senso de brasilidade, algumas letras críticas bem pensadas, e um jeito sombrio – que já é característica de quem tocou “Danse Macabre” em um programa de TV no horário nobre – e a urgência do rock mais pesado, que tem influência do stoner desértico do Queens of The Stone Age. Tudo isso está bem amarradinho, depois de passar pelo liquidificador, controlado pelo produtor Bruno Marx.

A pesada “Extremos Pueris” abre o álbum com uma pegada stoner, guitarras cheias e momentos de alívio, com o baixo sustentando. Vale destacar como o riff mais pesado entra em momentos estrategicamente pensados, como um artifício inteligente para segurar o interesse do ouvinte. A letra é sobre os “extremos pueris e seus focos hostis” que são defendidos ferrenhamente nos debates hoje em dia e só fazem mal à sociedade, segundo diz o vocalista Gustavo Bertoni. “Distopia” foi escrita pelo guitarrista Tomás Bertoni e denuncia os falsos profetas que usam a religião para explorar as pessoas. Segue a mesma lógica de vocais falsetados, menos intensidade nos versos e explosão guitarreira no refrão. Lá pelo meio, há uma mudança de andamento e um interlúdio instrumental ameaçador e soturno.

“(esc) Caverna Digital” importa elementos nordestinos, para mostrar que a banda, acima de tudo, é brasileira e tem orgulho disso. No meio, também há um momento de redenção insurgente, quando as guitarras assumem o primeiro plano e a veia stoner fica evidente. O groove baixo-bateria de “Ponta do Anzol” é marcante, podendo apontar para outra direção em termos sonoros, mas a influência de Josh Homme e sua trupe ainda está lá, na veia. Repare como o riff mais pesado é usado como um gancho para gerar um efeito mezzo dançante desajeitado mezzo agressivo, assim como Homme fez à beça em seu mais novo disco, Villains. “Frenesi” surge cheia de groove na levada de bateria, passa por vários momentos até desembocar em um interlúdio que lembra passagens de rock progressivo. “Trilha” é sorrateira e perigosa, aos poucos nos enclausurando pelas suas sutilezas. “Maré” é uma das coisas mais lindas em termos de melodias e harmonias que ouvi esse ano na música nacional. Ouça e preste bastante nas escolhas especialmente nesta.

Mesmo buscando algo de MPB e elementos de black music – isso nem tanto como muitos críticos têm afirmado por aí -, o Scalene continua cultivando os elementos obscuros, priorizando momentos mais etéreos e flertando com um stoner mais descarado. E assim como o Supercombo, que fez um disco sério e sólido que surpreendeu pelos detalhes em 2016, Scalene mantém a ousadia de cada lançamento, explorando detalhes riquíssimos em significado que são convertidos em energia e interesse do ouvinte.

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O repertório foi muito bem arrumado, não há momentos fracos, nem é daqueles discos que perdem força do meio para o final. Magnetite ganha ainda mais nuances depois da quinta faixa, priorizando um aspecto mais introspectivo, internalizado, sofrido e até mesmo melancólico, mesmo que não seja no sentido emocional do termo. A banda soa como quem olha para cima, almeja algo mais, algo além para a sua música. Além do bom trabalho do produtor Bruno Marx formatando as faixas, destaco a presença do vocalista Gustavo Bertoni. Suas interpretações são precisas e multidimensionais, sua voz soa perfeitamente emocionante e segura, em muitas gradações, acrescentando o necessário para as diversas ideias instrumentais.

Não é um álbum que desce de primeira, requer um certo cuidado do ouvinte, nem é tão pesado e explícito quanto o anterior. Mesmo assim, é um senhor álbum, com referências no lugar certo, idiossincrasias evidentes e excelência lírica-instrumental de um grupo que merece asas para voar longe.

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3 comentários em “Scalene – Magnetite (2017)

  1. Eu não suporto o sertanejo universitário. Só de olhar pros caras verá que são todos iguais: a mesma roupa, a mesma barba/cabelo hipster, ou cabelo/barba milimetricamente desgrenhado, a música então, deve ser a mesma pra todos. Foi essa a impressão que me passou os últimos posts das bandas nacionais, todos, eu disse todos são iguais no visual! Aí eu já perco a vontade de ouvir o som deles, já de que são iguais no visual e na “atitude” o som também deve ser. Acho que a única diferença é que os caras do sertanejo universitário me parecem mais limpinhos e cuidam mais de seus cabelos! Dispenso.

  2. Ufa, enfim, algo interessante…agora, é ouvir com calma e ver onde o “disco” chega….

  3. Pingback: Escuta Essa 62 – Os Melhores Álbuns de 2017 – Escuta Essa!

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