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The Waterboys – Out of All This Blue (2017)

A gangorra blues de Mike Scott

Por Eder Albergoni

Analisar um disco sob a ótica de suas referências é o primeiro processo pra entendê-lo. Nesse aspecto, Out of All This Blue se escora no antecessor Modern Blues (2015) que, como denuncia o nome, explora vertentes bluezeiras e sonoridade baseada em arranjos de cordas e órgãos. A armadilha é o trocadilho de blues e tristeza. E é nesse parquinho que brincam os discos do The Waterboys.

Mesmo que tudo lembre, nada se assemelha aos clássicos Fisherman’s Blues (1988) e This Is the Sea (1985), o que pode ser encarado como a evolução de um artista que tenta não se repetir, buscando soluções diferentes trabalhando mais nos detalhes, seja como o riff sintetizado de “Do We Choose Who We Love” que abre o álbum, ou como o riff marcante de piano em “Love Walks In”, que tem ainda um refrão de vozes instaurando um delicado, mas colossal, feito. Esse lado do disco guarda sutilezas arrebatadoras como a vibração pop de “New York I Love You”, a pseudo imitação hard rock de Aerosmith em “The Connemara Fox”, a delicadeza em si do violão acompanhando o piano em “The Girl in the Window Chair”, o Hammond que se sobressai em “Morning Came Too Soon”, os resmungos em “Hiphopstrumental 4” e a estranheza quase polifônica de “Mister Charisma”.

O que vem depois é um show num bar recatado em algum beco de Edimburgo, onde Mike e sua turma tocam sem pretensão entre goles de uísque e soda, tacadas de bilhar e lançamento de dardos. O tipo de noite em que aparece um valentão mexendo com todas as mulheres do recinto, quebrando todas as garradas de cerveja, destoando do clima amigável e aconchegante, e que o bartender precisa até chamar o policeman pra enquadrar o energúmeno. O policeman com certeza vai voltar mais tarde, quando seu turno estiver encerrado, pra tomar seus gorós a tempo de ouvir o resto do show da banda.

Apesar disso, as músicas do disco 2 não são meras composições jogadas à toa. Algumas até trazem coisas interessantes dentro dos detalhes e soluções achados por Mike Scott, mas depois de um disco inteiro elegante soam mesmo como material extra, e uma faixa curtinha como “Girl in a Kayak” é um ótimo exemplo da inconstância de Out of All This Blue, ainda que eu recomende fortemente a audição.

Se por um lado a produtividade de Mike Scott impressiona, já que o disco 1 é repleto de bons temas e mantém uma feliz regularidade, por outro o exagero de um disco duplo, mais os extras, mostra um desequilíbrio esmagador. Assim, o disco 2, mesmo com a levadinha soul de “Didn’t We Walk On Water” e a power pop “Yamaben”, deixa “Payo Payo Chin” sozinha no meio de canções bem mornas.

No entanto, a gangorra de Out of All This Blue pende mais pro lado onde o arruaceiro passa a noite inteira no chão frio da cela da delegacia, o balconista fica até mais tarde limpando o bar, o guardinha vai direto pra casa jantar com a mulher e filhos e precisa conversar sobre notas de escola e boletos bancários e o Mike Scott faz você chorar ouvindo “Love Walks In”.

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