2017 Resenhas Rock

Living Colour – Shade (2017)

Uma salada de blues, rock, hip-hop e funk 

Por Gabriel Sacramento

O filme 12 Anos de Escravidão, dirigido por Steve McQueen, conta a história de um cidadão que sofreu com a escravidão por 12 longos anos. O longa traz um retrato visceral da escravidão e do sofrimento humano, com planos longos que nos deixam angustiados. E um dos pontos positivos da produção é mostrar a relação dos escravos afro-americanos com a música, as canções que embalavam as duras e penosas jornadas de labor no campo de colheita. Essa relação é meio espiritual, quase como se quando cantassem alcançassem um nível superior de contemplação, que os afastava um pouco da realidade desesperadora. Essa música no futuro virou o que chamamos de blues, estilo base de diversos outros estilos fundamentais para a música americana e mundial.

E foi o blues que motivou o Living Colour, banda de rock nova-iorquina famosa nos anos 90, a voltar com um álbum novo. A banda tinha criado um cover da faixa “Preachin’ Blues” de Robert Johnson e a partir da experiência decidiu gravar um álbum que seria orientado ao estilo, como uma homenagem da banda à música tradicional americana.

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Foto: Karstein Steiger

Depois de 8 longos anos, uma espera quase interminável para os fãs que, junto com o fato do disco ter sido programado para ser lançado em 2014 e 2015 e só chegar aos nossos ouvidos em 2017, fez com que Shade viesse acompanhado de uma sensação arrebatadora de saudade e nostalgia. Mas o disco não vive só disso. A produção do veterano de guerra Andre Betts – parceiro da banda desde Stain (1993) – ajudou para que tudo soasse referente ao passado glorioso de discos como Vivid (1988), mas olhando para a frente, explorando elementos novos com uma familiaridade impressionante.

A melhor faixa do álbum é “Who Shot Ya”, que já tinha sido lançada no ano passado, em um EP com várias versões da faixa remixadas e outras duas músicas inéditas. É um cover do icônico rapper nova-iorquino Notorious B.I.G., em uma versão bem diferente, com uma roupagem guitarreira e mais formato-canção que a original. A versão ficou ótima, com um refrão difícil de esquecer, um bom solo de guitarra, verve roqueira e a veia hip-hop intocada. Acrescenta um tom político forte ao álbum, falando sobre as mortes dos jovens negros por tiros nos Estados Unidos (inclusive, o próprio B.I.G. acabou morrendo assim, infelizmente). “Freedom of Expression (F.O.X)” é uma excelente faixa de abertura com riffs e solos interessantes e uma estrutura meio blues rock. Logo em seguida, temos uma mudança para algo mais seco dos timbres aos arranjos no cover “Preachin’ Blues”. A sensação que temos é de sair de algo feito em 2017 para algo dos 1990 diretamente.

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“Blak Out” é forte e funky, com um refrão especialmente sensacional. “Who’s That” e “Invisible” são maravilhosos blues, que deixam claro o domínio que a banda tem das convenções do gênero. Já “Program” é pesadona ao estilo “Cult of Personality” e explora a ideia conspiratória e orweliana de que estamos vivendo uma realidade programada por alguém que controla rigorosamente tudo o que vemos.

Gravar covers em roupagens inovadoras, mas que pensam com respeito a versão original, é um trabalho extremamente difícil para bandas e requer um cuidado especial também do produtor. O Living Colour é uma banda reconhecida pelos covers, já que sempre trazem releituras corajosas de clássicos considerados irretocáveis como “Back in Black”. Já em Shade, além de “Preachin’ Blues”, “Who Shot Ya”, temos também “Inner City Blues”, faixa do Marvin Gaye – que já tinha um cover épico do Joe Cocker – e que aqui ganhou contornos guitarreiros e mais agressividade, mesmo que mantenha os vocais semelhantes aos de Gaye e as percussividades características em paralelo. A banda dá uma aula de como fazer um cover de excelência, acrescentando boas ideias, mas sem perder de vista os elementos da versão original (alguém deveria mostrar isso para o Tiago Iorc).

As performances individuais também são dignas de nota. Corey Glover está muito bem, seja fazendo a voz principal – respeitando cada nuance imposta pelos arranjos – seja fazendo overdubs, demonstrando que a versatilidade é um de seus pontos fortes. Vermon Reid está cirúrgico nas guitarras, carregando nos ombros as faixas, com linhas elaboradas e executadas com primor. Os detalhes de seu instrumento são fundamentais, como sempre foram, para o resultado final. Afinal, é o instrumento responsável por guiar o ouvinte por todas as referências que a banda explora. Temos ainda ótimas performances da cozinha com Doug Wimbish e Will Calhoun que, muito bem entrosados, oferecem um alicerce rítmico fundamental. Andre Betts também exerceu seu papel muito bem, cuidando da coesão entre as faixas e da força de cada uma delas dentro do set. elas ressaltam bem os pontos fortes dos músicos e nenhuma parece desnecessária.

A banda passeia principalmente pelo blues, mas explora o rock, o funk, o hip-hop e abusa de elementos eletrônicos diferentões que se encaixam bem, como em “Come On” e “Always Wrong”. Cada estilo conversa bem e complementa o outro, mostrando que o grupo é perfeitamente fluente em todas essas linguagens.

Shade é o melhor álbum da banda desde os anos 90, resgatando a força do grupo. A banda parece não ter envelhecido, nem perdido o vigor, a vontade de arriscar e de impressionar. Mesmo que não seja um álbum inventivo e totalmente diferente dentro do contexto discográfico, ainda é um álbum cativante e prazeroso, que fará com que você se interesse e vá atrás do que eles fizeram para chegar até aqui.

 

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Raymond Boyd

 

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3 comentários em “Living Colour – Shade (2017)

  1. Disco espetacular do Colour…

  2. Pingback: Prophets of Rage – Prophets of Rage (2017) – Escuta Essa!

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