2017 Rap/Hip-Hop Resenhas

Don L – Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3 (2017)

Rapper cearense não deixa de apostar no comercial, mas é quando aposta no alternativo que mostra porque é um artista de verdade

Por Lucas Scaliza

O rap nacional é uma caixinha de surpresas. Nunca se comportou e ficou nas ruas do gueto, da periferia ou da metrópole. Desde muito cedo aprendeu a brincar na praça do samba e da MPB, seja com Sabotage ou com Marcelo D2. Teve rapper que caiu de vez no sambão. Tem os jovens rimadores matadores de MCs que foram adquirindo peso e consciência. E tem os Rincón Sapiência da vida, que constroem os versos sobre riffs e ao vivo vira rock. Mas e se o rap nacional também fosse cinematográfico? Quase abstrato? Um Cidade de Deus refilmado no Irã?

“Eu Não Te Amo”, faixa que abre Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3, disco de Don L (que não gravou os volumes 1 e 2 desse roteiro), ganha corpo aos poucos. Os versos são excelentes, as punch lines abundam. Mas é a partir dos dois minutos e vinte segundos que temos um plot twist: a música deixa de ser o rap como o conhecemos e ele passa a rimar sobre uma base etérea, livre da ditadura da batida, com intervenções orquestrais e eletrônicas e participação de Diomedes Chinaski. Não é um rap comum. Você entende que não está diante de um disco comum.

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Foto: Felipe Larozza/VICE (Reprodução)

Roteirista que é, Don L sabe que uma frase pode mudar o fim do filme. Mais do que isso, sabe a forma de contar histórias e não fica se perdendo em longos trechos (diálogos, talvez?) para explicar algo ao ouvinte. Seu rap é fluente. É comum vermos os artistas falarem de si próprios, de suas dores e suas conquistas. Alguns precisam se provar tanto em seus álbuns que caem na ostentação. Don L não. Ele fala de si ao longo do álbum, sempre misturando sua história pessoal às suas digressões e contextos sociais, culturais e políticos. Não temos aquele rap de biografia, mas o rap em que o desenvolvimento do personagem é mostrando conforme a história avança. É sutil e sofisticado.

Você nem precisa de uma orelha de álbum para saber quem é Don L. Só ouvindo descobrirá que ele saiu do Nordeste e foi para São Paulo, lançou mixtapes antes de encarar a produção de um álbum, recebeu um prêmio das mãos de Caetano, quer amar Cristo mas não as igrejas, é comunista, adora carros, quer ser grande no hip hop nacional, não um talento regional, sabe na corte de quem ele precisa ser respeitado (cita Criolo, Emicida, Thaíde, Sapiência, entre outros) e sabe bem quais são os rappers ou grupos de hip hop que não estão exatamente dando aquela força ao movimento.

Seu som vai mudando, vai mostrando que cabe de tudo no hip hop. Batidas sincopadas e linhas de baixo sintetizadas, palmas e linhas de guitarras mais funkeadas (como na balada “Aquela Fé”, ritmo constante e crescente (“Fazia Sentido”). A base de “Cocaína” é um show de mixagem e produção, com batidas incríveis e camadas sonoras ricas. Logo em seguida, “Cocainainterlúdio” carrega no jazz, dando espaço para Thiago França solar o saxofone como se estivesse no Metá Metá.

Embora Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3 seja interessante por inteiro, é fácil perceber que as cinco primeiras músicas são o verdadeiro ouro na produção de Don L até agora (contando inclusive com o Caro Vapor / Vida e Veneno, de 2013). São muito maduras na expressão artística e na construção das letras. Nessa primeira parte do disco, até quando é mais comercial carrega consigo ainda ideias de ponta que o destacam no cenário do rap. A partir da sexta faixa, os temas são menos interessantes e o olhar de L é menos sagaz.

É totalmente compreensível que ele queira uma faixa mais sexy como “Mexe pra Cam”, mas em vista de tudo que vimos ser produzido antes, ouvi-lo cantando sobre “mexer a bunda”, sem nenhum subtexto ali mais interessante, é meio brochante. Assim como as ideias musicais de “Se Num For Demais” parecem apontar para algo interessante a princípio, mas acabam caindo em uma proposta mais comercial. E em “Laje das Ilusões” sobra uma base boa feita de colagens e de vozes criando uma harmonia e um refrão bem melódico na linha Emicida.

Roteiro trafega bem entre o rap inventivo, alternativo e comercial, o problema é que fica claro que as últimas quatro faixas não estão no mesmo nível de criação do que ouvimos antes. Se fosse um EP, só com as primeiras cinco músicas, seria perfeito. Mesmo assim, um dos melhores discos de rap feitos no Brasil este ano, confirmando a aposta em um talento do Ceará.

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