2017 Resenhas Rock

Nothing But Thieves – Broken Machine (2017)

Uma obra-prima do rock alternativo contemporâneo

Por Gabriel Sacramento

Em 2014, o grupo Nothing But Thieves estreou com um disco lançado pela RCA Records e Sony Music. Uma gravadora enorme já no primeiro trabalho é um privilégio que poucas bandas possuem, mas das que possuem poucas sabem realmente aproveitar. É fato que não é preciso quantidades exorbitantes de dinheiro para fazer um álbum de qualidade, como temos visto com a ascensão cada vez maior de bandas indie. Mas também é fato que no caso de Nothing But Thieves possuir o apoio de uma grande gravadora só fez bem para a já interessante proposta sonora.

O considerável sucesso do primeiro álbum deu projeção à banda para um novo projeto: Broken Machine. Chamaram o experiente e pé-quente Mike Crossey para o posto de produtor. A ideia era fazer um álbum que soasse mais ao vivo e que representasse o novo momento da banda, que tem tocado em festivais na Europa e feito abertura de shows para grupos como Muse e Biffy Clyro.

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Musicalmente, as ideias do quinteto se traduzem em um som que tem um quê de post-hardcore, emo e rock alternativo mais acessível, mas cheio de truques valiosos e criativos. O legal é justamente o contraste entre o desejo de soar palatável com ideias tortas, além de um cuidado absurdo com os detalhes. Broken Machine é repleto de boas faixas para serem ouvidas pelo público menos exigente, mas pode atrair a atenção do público médio também.

O primeiro single a ver a luz foi “Amsterdam”, que é uma sensacional prova de como jovialidade e ganchos melodiosos podem ser usados com bom gosto e um senso de identidade vital, resultando em algo imperdível. Repare quando, aos 3’18”, a voz de Conon Mason explode para anunciar a volta do refrão. O drive, a força, a angústia e a libertação. A forma como alternam entre o suave e o cheio em “I Was Just a Kid” é de uma sagacidade impressionante. A voz do Conon vai ganhando ambientações diferentes e sua performance é também especialmente versátil. Temos sempre a sensação de que a banda ainda vai surpreender ou trazer algo diferente em algum momento da faixa, até que acaba.

“Broken Machine” tem uma linha de baixo que me lembra um pouco de “Is This It” dos Strokes: lúdica, funcional e marcante. O vocalista utiliza falsetes para demonstrar a fragilidade da interpretação e de novo sua voz muda com os efeitos diferentes no decorrer da faixa. No refrão de “Get Better”, não sabemos ao certo o que, mas algo parece estar fora do lugar. A levada da bateria e o riff das guitarras parecem não conversar tão bem. Mas isso ainda funciona perfeitamente e gera um contraste fabuloso com o aspecto acessível das melodias. Os falsetes nos meios das frases em “Sorry” lembram o jeito de cantar do vocalista do Emarosa e até, porque não, alguns momentos mais emocionais do Matt Bellamy do Muse. A balada ganha mais peso no final, mas mistura isso com um arranjo fofo – no melhor sentido da palavra. A última execução do refrão com a banda toda já tocando com mais intensidade é um dos melhores momentos da carreira deles.

A rotação de ideias em “Live Like Animals” é uma prova do imenso leque criativo da banda. É muito interessante a forma como vão de seção em seção, repetindo o riff principal, mas variando os outros elementos do arranjo. A melhor do álbum é “I’m Not Made By Design”, que cresce aos poucos, tirando sua força da sinergia entre os instrumentos, até o refrão forte, intrigante, que é quase um duelo entre a voz principal e o riff base.

A produção do Mike Crossey foi fundamental para que a banda alcançasse o resultado satisfatório. O produtor guiou e coordenou o grupo para soar autenticamente pesado – com o peso tendo razões convincentes para existir – melodioso, emocionante, sublime, simples, mas também difícil, cheio de detalhes, dinâmico e inquieto. É uma produção muito cuidadosa com relação às estruturas das faixas, os arranjos e a variabilidade deles. Com sua experiência de trabalho com bandas do naipe de Arctic Monkeys – ele produziu o maravilhoso Favourite Worst Nightmare (2007) – e 1975, Crossey soube trabalhar os talentos da banda em paralelo, gerando um álbum de aparentes contradições sonoras muito convincentes. Com o Monkeys, ele já tinha chegado a um resultado que balanceava o esquisito com o dançante, o sério com o satírico jovial e ele parece ser a pessoa certa para produzir álbuns multivalentes e complexos assim. O trabalho de Mike com o vocal também foi seminal. O vocalista mostra diversidade e soa perfeitamente seguro – os próprios músicos falam que é como se Conon estivesse interpretando diferentes personagens. Junto com as melodias, a voz é um dos motivos que mais chamam a atenção, assim como é no Muse também, por exemplo.

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A mixagem do álbum também é excelente. As faixas soam diferentes dentro de si mesmas, mas no geral, a mix balanceia bem os instrumentos, conferindo mais volume para cada um quando necessário e estabelecendo uma harmonia interessante entre eles. Também temos a sensação de estar ouvindo um álbum que deixa o ouvinte respirar e que é tridimensional: cada instrumento parece estar bem colocado no espectro, tendo seu espaço específico e não interferindo no espaço dos outros. 

Em um mundo ideal, deveríamos estar vendo Broken Machine ganhar prêmios e bater recordes por aí. A banda soa segura e corajosa e merece os holofotes. Com certeza conseguiram colocar um grande sorriso no rosto dos ouvintes, que passaram de fase em fase, até chegar no último nível de compreensão do álbum, aquele que é mais recompensador. Ouça e perceba que está diante de uma obra-prima do rock alternativo moderno. E anote aí: o futuro é promissor para esses garotos.

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