2017 Resenhas Rock

Black Country Communion – BCCVI (2017)

Poderiam ter voltado com algo mais interessante

Por Gabriel Sacramento

Ah, os supergrupos. Quem inventou isso de reunir músicos famosos – muitas vezes com egos enormes – para formar uma banda e começar “tudo de novo” como faziam no início da carreira, merece um grande prêmio. Mesmo que o Cream seja considerado o primeiro, o termo surgiu mesmo em 1968 com um álbum cooperativo de Al Kooper, Mike Bloomfield e Stephen Stills. A fórmula sempre deu certo e sem pensar muito, somos tentados a concluir que juntar vários excelentes músicos e um bom produtor é a fórmula quase perfeita para conseguir bons resultados sonoros. Mesmo que seja difícil manter as ambições alinhadas e os grupos acabem se desfazendo – sendo por isso, difícil de serem levados a sério como bandas -, já foram registradas várias pérolas musicais de uniões como essas.

E de todas as voltas que 2017 podia trazer, essa era uma das mais improváveis. O supergrupo que se juntou em 2010 e gravou três álbuns interessantíssimos sob o comando do experiente Kevin Shirley tinha oficialmente acabado em 2013, e vimos Glenn Hughes e Joe Bonamassa continuarem tocando as carreiras solo para frente. No entanto, para alegria dos fãs, Bonamassa sugeriu a reunião e aqui estamos nós de novo, vendo Glenn Hughes, Bonamassa, Derek Sherinian e Jason Bonham – filho do baterista do Zeppelin – juntos.

Neil-Zlozower
Neil Zlozower

Dá para dizer, sem medo de errar, que o supergrupo é um dos melhores do rock nos últimos anos. Além de ser um quarteto, o Black Country Communion conta com Kevin Shirley – o quinto membro -, onipresente, dando dicas e controlando tudo. Se você lê o que escrevo por aqui, sabe que considero o fato de produtores permanecerem com uma banda por muito tempo um bom sinal.

Esse quarto álbum foi gravado no estúdio do Shirley na Califórnia em uma semana e mixado pelo próprio Kevin em Março deste ano. O disco tem ótimos momentos como na primeira faixa, “Collide” – que poderia ter entrado para o último álbum do Hughes. É um blues-rock com aquela estrutura verso-riff-verso-riff que já é clássica e lembra petardos absolutos como “Black Dog” do Zeppelin e “In the Still of The Night” do Whitesnake. Outro grande destaque é a faixa “Sway”, com boas ideias dos quatro instrumentos em perfeita harmonia e um daqueles refrões grandes nos quais o Hughes rasga a voz. O caminho para o refrão é construído aos poucos, sem ansiedade e pressa. O baixão distorcido e agudo de “Crow” é uma das melhores coisas do álbum. Nessa, Hughes sola como em poucos momentos na carreira, mas também temos calorosos solos de órgão e guitarra, como em uma big jam. A faixa é excelente, pesada e energética do início ao fim. Unindo peso e energia, temos também a ótima “Awake”, com um riff principal bem intrigante e muita sujeira.

Porém, também temos momentos burocráticos. “The Last Song For My Resting Place” é uma balada, com toques de folk celta e cantada pelo Bonamassa. A canção é boa, no sentido de bem escrita, mas seu desenvolvimento e seus sete longos minutos de duração jogam contra. Temos a mesma sensação quando ouvimos outras canções longas do álbum como “Wanderlust” e “When the Morning Comes”: se fossem rearranjadas para durarem menos, soariam melhores, menos enfadonhas. “The Cove” possui um problema sério de interpretação do Glenn Hughes: ele parece bater sempre na trave e falha em expressar espontaneidade em sua performance, tudo parece precisamente calculado, cada ataque, cada nota. “Over My Head” é bem fraquinha e poderia simplesmente não ter sido incluída no tracklist. Em termos sonoros, lembra bem mais a carreira solo do Hughes que qualquer coisa.

A banda continua com aquele som poeirento que misturava um quê de blues rock com hard rock dos primórdios, só que aqui soa mais polido e menos sujo que soava em 2010. As performances individuais continuam, no geral, excelentes. Bonham não é tão criativo quanto o pai, mas é diferenciado, seja pelas escolhas ou pela pegada forte. Hughes está sempre bem, sua voz ainda parece afetada pela idade, mas ainda assim, ele sabe controlá-la para dar o seu melhor (diferente de outros cantores loiros por aí). Bonamassa dispensa comentários e Sherinian faz um bom trabalho também colocando bem seus teclados com ótimas ideias. Os arranjos demandam muito de todos os músicos e eles se entregam o suficiente.

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Mas a questão da burocracia (que faz o álbum soar um pouco tedioso em diversos momentos) é um problema de produção. Kevin Shirley é sim um ótimo e versátil produtor – tem uma discografia de dar inveja -, mas poderia ter sido um pouco mais rigoroso, ter aparado os excessos, visando um resultado mais conciso e direto ao ponto. Seu trabalho exagera as qualidades dos músicos tanto, que fica extremamente cansativo e repetitivo para o ouvinte. Músicas longas não são um artifício novo na carreira da banda, ora, em seus primeiros discos já tínhamos isso. Mas nada em BCCVI se compara a um desenvolvimento sensacional como ouvimos em “Song of Yesterday” do primeiro álbum, por exemplo, que é uma faixa extremamente longa, mas com um arranjo que rotaciona ideias de uma forma muito inteligente, sem nunca cair na mesmice. Vale lembrar que o produtor também já trabalhou bem com álbuns cheios de faixas longas, como o bom A Matter of Life and Death (2006) do Maiden e o fenomenal The Ballad of John Henry (2008) do Bonamassa solo.

BCCVI é, portanto, um álbum mediano. Incrivelmente bom em seus momentos de inspiração e incrivelmente inchado e sem substância em outros momentos. Fica claro que o grupo poderia ter voltado com algo mais interessante e esse álbum põe em xeque o futuro da banda. No mais, fica a impressão confirmada de que a vida de um supergrupo tende a sempre ser curta e quando passa disso, pode ficar forçado, como se fossem contra alguma lei natural do universo musical. Talvez a pressa para lançar o álbum de retorno deixou as coisas mais complicadas. Não sabemos. Na dúvida, ainda temos os primeiros álbuns para ouvir novamente, já que estão acima de qualquer suspeita. São por eles que a banda será lembrada.

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1 comentário em “Black Country Communion – BCCVI (2017)

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