2017 Pop Resenhas Rock

The Killers – Wonderful Wonderful (2017)

Uma salada desorganizada de sensações e referências

Por Gabriel Sacramento

Comecei a ouvir The Killers com o Sam’s Town, de 2006, um álbum realmente interessante que prendeu minha atenção por causa das similaridades entre o rock do grupo e o heartland rock de arena de Bruce Springsteen e John Mellencamp, além da veia indie impregnada. É também um disco com excelentes canções, que viraram verdadeiros clássicos da banda e figurinhas carimbadas nos shows. Um dos meus álbuns favoritos dos últimos anos que entrou facilmente para minha lista da discografia básica do rock 2000.

Já durante as primeiras audições de Wonderful Wonderful me senti um tanto desorientado e confuso. Foi difícil compreender o que a banda tinha feito em termos de proposta e como esse álbum se situa dentro da discografia – que é até bem regular. Para os fãs de Hot Fuss (2004) e do segundo, Sam’s Town, já vai o aviso: quase nada remete à essa primeira fase dos Killers. Trata-se de um álbum que aponta – ou tentar apontar – para uma nova direção. Assim como o “som indie” foi tendência, deixar esse som está sendo a tendência seguida por quase toda essa geração pós-virada do milênio.

melhor

Só que diferente do Kaiser Chiefs em seu pop safado do último álbum, o The Killers parece ter medo de assumir o lado pop. Se a banda de Ricky Wilson tirou os sapatos e se jogou na pista de dança sem preocupações com o mundo do lado de fora, o Killers parece tímido na hora de dançar “errado”. Na verdade, eles parecem temerosos em assumir qualquer lado: Wonderful Wonderful parece não querer ter um foco e sim ficar divagando por referências e mais referências. Temos, por exemplo, “The Man”, que é sim uma faixa memorável, com sample de Kool and The Gang, leve, solta e dançante. Lembra os Chiefs descaradamente, mas também soa como se – permitam-me divagar – o LCD Soundsystem chamasse o The Weeknd e o Daft Punk para compor uma música de dance rock.

Mas eles não ficam no pop de “The Man”. A faixa-título já traz um quê de Depeche Mode, climática, sisuda e tensa, enquanto “Some Kind of Love” aponta para algo mais etéreo, que lembra as bandas atuais de indie folk e algumas coisas da Lana Del Rey, com melancolia e abuso dos ecos. Temos também “Run For Cover”, que era para ter entrado para o Day & Age (2008). É um dos poucos momentos em que eles soam como Killers mesmo e não entregues aos delírios estilísticos. A outra faixa que me deu essa sensação foi “Tyson vs Douglas”, a primeira música em que senti de fato as guitarras pulsando e conferindo peso. Também se destacam os riffs de teclado tocados pelo vocalista Brandon Flowers. Aí vem a mesma pergunta: legais essas referências, mas por que não investir mais em uma delas ao invés de ficar passeando por todas vagamente?

Continuando no tracklist, temos a interessantíssima “Life to Come”, com um clima comedido nos versos e um refrão mais explosivo, marcado por vocais angustiados e desafinadas propositais. No entanto, o ponto fraco da faixa são as duas guitarras super contidas, que até cooperam com o arranjo, mas bem timidamente. “Rut” aborda a depressão da esposa de Flowers, com letra tocante e instrumental singelo. Singeleza essa que também marca a bela “Have All the Songs Been Written”, com uma letra também reflexiva que merece menção. Aliás, essa inteligência de economizar o instrumental nas faixas com letras mais fortes foi um acerto enorme.

Wonderful Wonderful foi produzido majoritariamente por Jacknife Lee, que está trabalhando no novo álbum do U2 e foi indicado pelo próprio Bono. Se neste álbum não tivemos a voz de Bono cantando, algumas das ideias foram justamente sugestões do irlandês. Além do produtor Jacknife Lee, houve produções adicionais do DJ Eron Alkan em “The Man” e de Stuart Price em “Out of My Mind”. A produção de Lee é boa, contudo falta um pouco mais de coesão entre as faixas, algo que amarre as referências a um senso maior de identidade e que fizesse com que elas dialogassem melhor entre si. Faltou também uma direção para a banda soar como The Killers e não como uma banda tentando ser The Killers. Já em termos de repertório, não temos grandes problemas: as faixas são interessantes isoladamente – com exceção de duas que são fraquinhas, mas não descartáveis. Isso nos leva a uma conclusão: faixas boas não necessariamente fazem álbuns bons.

A banda vai se apresentar como headliner na próxima edição do Lollapalooza Brasil em 2018. Como uma banda ao vivo, eles não dão motivos para reclamar: Brandon é um grande frontman, que alterna entre carisma e interpretação precisa das canções, com a técnica sempre em dia. No geral, a banda é muito boa no instrumental – destaque especial para Ronnie Vannucci Jr. na bateria – e o show é energia pura, principalmente nos momentos em que tocam os hits dos primeiros dois álbuns. Apostar em “Run For Cover” e “The Man” é certeza de duas novas faixas fortes para deixar o show ainda mais pra cima.

O novo álbum foi vendido por Flowers como o mais maduro, no entanto, parece bem mais imaturo do que qualquer coisa que já fizeram. De todos até aqui, Wonderful Wonderful é certamente o mais fraco e mesmo que algumas canções possam funcionar bem, inclusive ao vivo, o todo está longe de ser algo sensacional. Depois de Battle Born (2012), que foi como um resgate de uma veia mais roqueira, eles se afastaram da urgência dos primeiros registros e ficaram no meio do caminho entre o pop e o rock. Ficou a sensação de produto inacabado e de álbum esquecível.

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