2017 Folk Resenhas Rock

Neil Young – Hitchhiker (2017)

Uma viagem no tempo para 1976

Por Gabriel Sacramento

Cantor, compositor, diretor, produtor, roteirista, ativista, bate falta, cobra o escanteio e corre para cabecear: esse é Neil Percival Young. O artista é simplesmente uma das figuras mais emblemáticas da música canadense e mundial, com uma discografia imensa e uma importância absurda para o mundo do folk e do rock – mais um que encurtou a distância entre os gêneros muito bem. Para você ter uma clara noção da influência do tiozão: ele é conhecido como “padrinho” do grunge por ter inspirado de Eddie Vedder à Kurt Cobain, além de bandas como Sonic Youth, Oasis e Radiohead. Estamos falando não de uma pessoa, mas sim de uma instituição musical.

Depois de ter falado dele em 2016 com Peace Trail, aqui estou novamente para falar de mais um álbum, que não é necessariamente novo, visto que foi gravado em 1976, mas nunca lançado propriamente. A produção é do americano David Briggs, que acompanhou Young durante décadas, sempre coordenando e cooperando com o canadense. Segundo Briggs, o álbum foi gravado em uma noite. Isso mesmo: 10 faixas em uma noite só! Briggs fala com entusiasmo sobre como Young andava criativo e produtivo naqueles dias pós-Harvest (1972): “Ele não sentava com uma caneta e um papel. Sentava, pegava a guitarra, olhando pra mim e em vinte minutos tínhamos uma música”. Ou seja, mesmo depois de álbuns sensacionais no começo dos anos 70, Mr. Young ainda tinha criatividade de sobra para tais façanhas.

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O álbum não tinha sido lançado, mas oito faixas já tinham aparecido em algum momento da carreira. Apenas duas delas são novas: “Hawaii” e “Give me Strength”. Ainda assim temos as outras já lançadas em versões super intimistas com o músico e seu violão apenas, em performances cruas, de poucos takes – afinal, ele disse que só parava para beber e se drogar. À medida em que avançamos no tracklist, sentimos Young mais perto de nós. O final é como se estivéssemos na Califórnia em 76, assistindo-o executar aquilo sob o olhar de Briggs.

Ainda estamos em 2017 quando começa “Pocahontas”, faixa que já tinha aparecido no álbum ao vivo Rust Never Sleeps (1979). Lá pelo meio da faixa, embarcamos na máquina do tempo e ajustamos o dia e hora de destino. Enquanto viajamos, paramos para prestar atenção na guitarra de Young, assim como no seu ótimo timbre de violão. Em “Captain Kennedy”, estamos quase no meio da viagem e ainda maravilhados com a técnica de dedilhado do canadense, principalmente na introdução. Também nos impressiona a forma como o violão ressoa no espaço sonoro, como cresce em volume, mantendo-se belo no timbre. Quando começa “Give me Strength”, acabamos de chegar em Malibu, próximo ao estúdio. E em “Ride My Llama”, já estamos no estúdio assistindo Neil cantando tudo com muita paixão e entrega. 

É claro, para os fãs de longa data de Neil Young, Hitchhiker pode não ser grande coisa. O legal do álbum é justamente ver o cara em um grande momento de inspiração, colocando pra fora canções que soam maravilhosas e precisamente acabadas. A produção fez questão de deixar os dois personagens do roteiro brilharem: Young e seu violão.

Como em Peace Trail, Hitchhiker sugere pouco tratamento – mesmo que tenha um nome na pós-produção que consta nos créditos – e mesmo assim, não é um álbum chato, nem tedioso, pelo contrário: a beleza das canções aqui é gritante e tudo isso compilado em um álbum faz pleno sentido. Uma prova cabal de que artistas geniais como Neil Young só precisavam de um violão e horas em um estúdio para criar pérolas sonoras. O talento não está no equipamento, mas sim no músico. Aliás, o talento é o músico.

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Neil Young na década de 70 por Joel Bernstein
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2 comentários em “Neil Young – Hitchhiker (2017)

  1. Linda resenha, irei ouvir com certeza

  2. Pingback: Neil Young + Promise of the Real – The Visitor (2017) – Escuta Essa!

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