2017 Resenhas Trilha Sonora

It – A Coisa – a trilha de Benjamin Wallfisch (2017)

Trilha sonora e design de som do filme se unem para assustar mais que muitas imagens

Por Gabriel Sacramento

It – A Coisa é a nova adaptação do clássico do Stephen King, que já tinha ganhado uma série de TV há exatos 27 anos. A direção é do argentino Andy Muschietti e a trilha é do versátil Benjamin Wallfisch, que também trabalhou na trilha do Estrelas Além do Tempo (2016), Dunkirk (2017), o também terror Annabelle 2 (2017) e na de Blade Runner 2049, ao lado de ninguém menos que Hans Zimmer. O longa foi bem aceito pelo público e segue quebrando recordes por aí. Um filme de terror, mas que também trata da necessidade de união, força das amizades, superação dos demônios internos e da importância de honrar compromissos.

E se o filme consegue manter o terror e a tensão em boa parte do tempo, investindo bem mais nisso do que na dinâmica entre os personagens do Clube dos Otários, a trilha é marcada por súbitos momentos aterrorizantes e intrusivos que pegam o espectador de surpresa assim como as cenas em si. A dinâmica entre os sons fracos e fortes é fundamental para a construção de susto. São como vários “jump scares musicais” que, sim, chocam bem mais o ouvinte do que alguns dos jump scares visuais do filme. Muitos críticos afirmaram que eles perdem força com o tempo, já eu acredito que a música e o design de som são mais fortes nesses momentos e estão lá justamente para evitar que isso aconteça, como em uma equação balanceada em que o resultado é sempre constante não importam os valores das variáveis. Esses jump scares sonoros funcionam bem até quando você ouve a trilha isolada do filme, o que ressalta o ótimo trabalho de manipulação de sons.

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“Georgie, Meet Pennywise” acompanha o primeiro grande incidente do filme, indo de notas mais baixas e misteriosas a um barulho agonizante com forte impacto percussivo e muita reverberação. “Derry” surge logo em seguida, revelando um ótimo contraste com a faixa anterior. A direção acerta em alternar climas em favor da dinâmica, tudo é feito sem sacrificar o terror, na verdade a existência de momentos mais calmos tornam os assustadores ainda mais chocantes e inesperados.

Na cena mais forte do longa, que envolve a personagem Beverly Marsh, quase no fim da primeira hora, os sons diegéticos roubam a cena e a trilha se associa a eles, ao fundo, em uma conexão simbiótica, criando um terror que vai além do que estamos vendo. É um dos poucos momentos em que a mixagem se aproveita mais do ambiente do que das músicas. E se os elementos visuais nesta sequência e em muitas outras partem para o surreal, junto com muitos recursos de horror corporal, a trilha faz tudo parecer real, crível e tão natural quanto nossa capacidade de ouvir e perceber pelo sentido auditivo. Se a surrealidade pode te afastar da noção de proximidade do medo que Pennywise causa, a música de Wallfisch e o design de som trazem o medo para perto, o mais perto possível, fazendo isso tão rápido quanto os cortes que trazem o palhaço assassino bruscamente para cima das vítimas em câmera subjetiva – recurso bastante utilizado.

Algumas das cenas mais assustadoras fazem uso de câmera tremida e cortes rápidos, que são bem montados e que geram um efeito de confusão e profunda agonia no espectador diante do que não podemos compreender visualmente com facilidade. E a trilha complementa a agonia, seja com sons que parecem fricção de metais ou com ascendência cromática – em muitos momentos, a música vai crescendo em volume e em outros, ela vai crescendo em tons, junto com a nossa tensão ao ver tudo aquilo. E vale ressaltar que mesmo nas sequências que parecem visualmente confusas – propositadamente, é claro – a trilha é perfeitamente compreensível, desde os instrumentos que fazem parte até como a noção de barulho é construída através da saturação dos instrumentos na mixagem.

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Também vale ressaltar o uso de canções de rock e a referência aos New Kids on the Block. Esses adicionais foram bem colocados, gerando um efeito interessante dentro do filme, que não pretende se manter só na tensão crescente, mas apresentar os personagens, suas motivações e a cidade de Derry também. Não há desperdício, nem canções faltando, tudo é bem utilizado e extremamente funcional. Nos momentos de mais esperança do filme como em “Georgie Found”, bem como nos de redenção (“Blood Oath”), a trilha também acompanha bem, seja exalando positividade ou representando uma espécie de desfecho sonoro que nos alivia. Também há um senso aventuresco em algumas passagens, bem como um senso de euforia em momentos chave como na “Welcome to the Losers Club”, que aparece lá pelo terceiro ato.

It é um filme chocante, perturbador, que engrandece o que Stephen King nos tinha apresentado, com uma direção precisamente ágil, um roteiro que conecta bem os acontecimentos e atuações inteligentes. A trilha em si, junto com o trabalho de mixagem de som acrescenta uma noção extra de medo que não poderia ter sido captada pelo visual somente – mérito maior para direção do que para o compositor, é verdade. Muschietti brinca com nosso sentidos, fazendo It ser uma experiência audiovisual marcante. O filme consegue ser também edificante, deixando uma mensagem importante no final – que acrescenta ainda mais à sensação de dinheiro e tempo bem investidos.

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