2017 MPB Nacional r&b Resenhas Soul

Xênia França – Xenia (2017)

Baiano em essência, multicultural na linguagem

Por Gabriel Sacramento

Poucas coisas me deixam tão feliz quanto viajar para minha terra natal, Salvador. O sentimento de pertencer a um lugar, as boas memórias da infância maluca e divertida e de todos os personagens que foram cruciais para a formação da minha personalidade. Tudo isso vem à mente como um turbilhão quando respiro o ar da cidade onde nasci. Na minha última viagem, aproveitei para ouvir algo apropriado: este álbum da Xênia França que é baiano na essência, mas multicultural na linguagem.

Xenia é sofisticado, pois se propõe a ser versátil e conquistar o ouvinte. Temos bons momentos de jazz, percussões por todos os lados, além de elementos eletrônicos e um forte apelo pop. A força do vocal feminino da integrante do Aláfia é aproveitada, explorada e maximizada pela produção de Pipo Pegoraro e Lourenço Rebetez. Temos um álbum que visa um público específico, mas o faz com alusão a elementos que podem ser desconhecidos para esse público.

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Lucas Lima

“Porque me Chamas” abre o álbum com o balanço das percussões e vocais harmonizados e dobrados com excelência. “Do Alto” é jazzy, com atmosfera meio sombria e timbres abafados. “Respeitem Meus Cabelos, Brancos” traz uma sacada sensacional com o uso da vírgula no título, o que permite à cantora explorar os dois significados possíveis da frase. “Perfeita Para Você” é introduzida com uma levada torta de bateria e desemboca em psicodelismos bem dosados com uma veia R&B alternativo. Lá pelo meio, fica semi-roqueira e o nível de lisergia excede os níveis esperados, causando uma overdose no ouvinte. “Reach The Stars” também é R&B total e “Breu” é como a colagem sensacional de várias ideias de músicas diferentes, que conversam bem e levam o ouvinte em uma direção bem definida.

Poucos álbuns de estreia são tão bons quanto Xenia. A produção da dupla Pegoraro e Rebetez  fez um trabalho espetacularmente versátil, que permitiu que a cantora experimentasse bem por vertentes bem diferentes, com um senso de autoridade no uso de cada uma, originalidade e uma certa maturidade na exploração de cada estilo. A produção converteu idéias rústicas e aleatórias em um álbum coeso, que funciona perfeitamente como uma obra, com canções que complementam bem umas às outras e nos falam acerca das preocupações de Xênia, suas visões religiosas e sua capacidade artística de expressar tudo isso. Os arranjos são marcantes e efetivos, tanto os instrumentais quanto os vocais. O jazz abraça a psicodelia, que por sua vez abraça o R&B, que já está de mãos dadas com o soul e a eletrônica e todos se curvam à vontade de experimentação de uma baiana que saiu da sua terra para ganhar o país.

A produção também aplicou uma abordagem incrivelmente minimalista em muitos momentos, aproveitando muito bem até o silêncio (como na fantástica “Breu”), e mais pesada em outros – confundindo o ouvinte propositadamente com muitos elementos -, mas sempre com bom senso e visando o bem do conceito.

A mixagem do álbum preza pela leveza nos timbres ao seguir de forma inteligente as demandas dinâmicas da produção, além de oferecer uma paleta diversificada de truques e configurações sonoras. Mesmo quando há muitos instrumentos tocando ao mesmo tempo, eles estão muito bem posicionados e se comunicam bem, deixando claro para o ouvinte o que está acontecendo. Quando temos muitas percussões, por exemplo, elas são bem colocadas para soarem fortes e acrescentarem o necessário de ritmo, sem soar batucado demais e destoar da proposta leve e enxuta do resto do álbum. A leveza do som junto com um certo cuidado com a dinâmica e sensibilidade nas performances faz o álbum possuir um som único e alcançar os seus objetivos de forma singular.

Trata-se de um álbum com muita influência do R&B alternativo da Solange Knowles – que fez um dos melhores álbuns de 2016 -, seja na produção ou no conceito, tocando em temas como racismo e valorização da mulher negra. Também temos uma valorização da cultura baiana, com um forte senso de respeito às raízes, o que mostra que, mesmo vivendo em São Paulo, Xênia nunca esqueceu de onde veio. Um primeiro álbum de respeito, que assim como a Bahia, é multicultural, fortemente religioso e denso. Sem dúvidas, um dos destaques da música nacional em 2017.

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Beto Macedo

 

 

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