2017 Pop Resenhas Rock

St. Vincent – MASSEDUCTION (2017)

Novo disco é como a trilha sonora irônica de um desfile de alta costura

Por Lucas Scaliza

Ela não conseguiu evitar. Aproveitou o reconhecimento do pop futurístico, rock afetado e visual excêntrico de St. Vincent (2014) e entrega um álbum provocativo. Tão provocativo que ela não perde a chance de transformar o “Masseduction” da terceira faixa em “Massdestruction”, já deixando bem claro o apocalipse do universo em que vivemos.

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Da capa aos clipes, ao visual ao vivo de St. Vincent e, claro, passando pelas músicas do álbum produzidas por Jack Antonoff (que também trabalhou no Melodrama da Lorde), Masseduction soa como um disco profundamente sentido e irônico, desses que poderiam ficar rolando durante um desfile glamoroso da Dolce & Gabbana ou da Victoria Secrets. A música cairia muito bem com modelos magérrimas exibindo alta costura, bolsas caríssimas, fetichismos em sapatos salto agulha e calcinhas fio dental. Ao mesmo tempo em que empresta uma produção esmerada e potente ao desfile, com músicas como “Los Ageless” e a pesada “Sugarboy”, a cantora sublinharia cada passada da top model com versos que acabariam desconstruindo esse mundo de fantasia em que vivemos e no qual queremos acreditar. Ela namorar a modelo e atriz Cara Delevigne apenas reforça o lado ácido do álbum e de toda essa estética que Annie Clark (St. Vincent, ela mesma) criou em torno de si.

A musicalidade continua fluida, indo de orquestrações a texturas de teclado e sintetizadores até pop esquisito. A guitarra ainda é o instrumento que dá orgulho de ver na mão de St. Vincent, seja pelo timbre modernoso que tira dela ou do modo meio futurista como toca, mas não é um instrumento que toma o mesmo espaço que em discos anteriores. Ainda assim, “Fear The Future” e “Masseduction” oferecem riffs bem legais. Já em “Young Lover” a distorção compete com o climão pop de clube, bagunçando a mix toda de propósito. É em momentos assim – que também estão em “Hang On Me” e “Pills” – que St. Vincent deixa claro que seu lado pop até tenta se adequar ao mainstream, mas é o mainstream que precisa incluí-la, sempre correndo o risco de ser implodido.

Implodido, pois embora faça parte dessa indústria cultural e se aproveite dela para criar seu espetáculo estético que envolve música e moda, cada faixa toca em temas que nem sempre são os mais bonitinhos. É um disco provocativo, de certo modo, lembra? “Pills”, uma das melhores de MASSEDUCTION, pode servir para toda a galera que toma Rivotril como balinha, mas ela não está apontando o dedo para o público e sim para si mesma, que durante um tempo teve problemas para dormir e tinha que recorrer aos medicamentos. E o refrão, pegajoso, é uma forma de emular os jingles publicitários. “Los Ageless” é sobre Los Angeles, a cidade dos sonhos, que os cria e os esmaga, e o intenso medo de envelhecer que paira sobre sua população mais afamada. “Savior” é sobre fantasias sexuais, “Fear The Future” entrega mais um clima de fim de mundo ao olhar para os americanos e “Young Lover” retrata problema com drogas, principalmente as injetáveis e bebíveis.

“Smoking Section” é a paulada no dedão que fecha o disco. Lenta e climática, é uma mistura faroeste de Queens Of The Stone Age com PJ Harvey. Sobre os escombros dos EUA, St. Vincent docemente canta para nós que “Não é o fim”, apesar de ter pensado em suicídio alguns versos antes. As mais íntimas “New York” e “Happy Birthday, Johnny” mostram um lado mais leve e bonito, embora as letras também não sejam exatamente alegres.

Não parece que Masseduction vá destronar St. Vincent como seu melhor álbum, mas com toda a certeza é um passo a frente. Annie Clarke é dessas que usa o pop para falar do pop e cores berrantes para chamar a atenção ao absurdo das situações que retrata. O rock deu uma arrefecida, é verdade, mas ainda tem distorção, em muitos momentos usada por Tuck Andress, um virtuoso jazzista e tio de Clark, que segura a onda e usa a guitarra como a sobrinha usaria. A parceira de Tuck, a cantora Patti, também contribui com o disco discretamente, inclusive na faixa sobre as fantasias sexuais.

Annie Clark tira o avatar de St. Vincent em alguns momentos muito específicos de MASSEDUCTION para tentar se conectar com o público. Não perde a elegância mesmo quando fala de problemas com entorpecentes de pessoas próximas a ela ou da própria compulsão por medicamentos. O desfile precisa continuar, afinal.

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1 comentário em “St. Vincent – MASSEDUCTION (2017)

  1. excelente opinião sobre o album, a critica, tudo, parabens!!!

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