2017 Metal Resenhas

Myrkur – Mareridt (2017)

Compositora dinamarquesa mostra que o black metal ainda não chegou ao limite

Por Lucas Scaliza

É importantíssimo não tratar Mareridt como apenas mais um disco de metal. Há uma série de fatores que, combinados, fazem dele uma força necessária no mundo da música pesada e extrema. A cantora dinamarquesa Amalie Bruun adotou o nome artístico de Myrkur (“escuridão” em islandês) para sua persona black metal. E Mareridt (“pesadelo” em dinamarquês) é seu segundo álbum de estúdio desde 2014, uma carreira que vem propondo e provando que o gênero pode sim ter novas influências e ainda continuar tocando o terror, ou melhor, gerando sonhos ruins nos ouvintes.

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Quem ainda não a conhece precisa ser avisado de que Myrkur é uma cantora lírica e multi-instrumentista, então espere várias nuances em suas músicas, não apenas a pegada destruidora tão típica do black metal. Mareridt é especial justamente por se permitir desenvolver sem a obrigatoriedade de soar de uma determinada forma, como se seguisse um velho manual empoeirado feito por homens noruegueses que pintam a cara, mas nem sempre estão ligados a práticas mágicas ou filosofias ocultas.

Aliás, Myrkur/Bruun é uma voz e um estilo completamente “desviante” dentro do gênero e, por isso mesmo, sofreu ataques de metaleiros pela internet ao lançar M (2015). A acusam de não ser pesada o suficiente (talvez seja a falta dos batidos blast beats) e de ser simples demais na hora de tocar (como se todo black metal fosse uma sinfonia de Beethoven, não é?). Mas se é de referências que você precisa para confiar nela, ela tem de sobra: M teve guitarras gravadas por Teloch (Mayhem, Nidingr), baterias executadas por Dodheimsgard (Nidingr) e produção de Kristoffer Rygg, do Ulver, banda que já foi black metal e hoje se dedica a fazer vanguarda.

Mareridt não seguiu a receita já proposta anteriormente e ataca com diversas passagens fúnebres, com tons sombrios e profundos servindo de base para seus vocais limpos e menos faixas apavorantemente barulhentas. Faixas como “The Serpent”, “Elleskudt”, “Ulvinde” e “Gladiatrix” combinam doom e black metal com sua voz macia para criar faixas pesadas e até mesmo acessíveis para o estilo. Outras composições, como “The Crown”, “Funeral”, a faixa-título ressaltam os aspectos mais clássicos ou folclóricos (“Kaetteren”) de sua sonoridade. “Death of Days” se aproxima mesmo do new age e “Himlen Blev Sort” e “Kvindelli” soam como pop para o estilo, mas são faixas bônus, então pode-se argumentar que ampliam o escopo do álbum e não definitivamente fazem parte desta obra inspirada por pesadelos e paralisia do sono.

De black ou post-black metal mesmo, temos apenas “Mandeblôt”. O restante está bem mais gótico, livre de porradaria e guitarras insanas, mas ainda construindo um reino de sonhos nebulosos. Como disse, não é um black metal comum. Ao invés de seguir a cartilha, ela se permitiu ousar dentro do estilo. Aliás, ela também não usa corpse paint e nem roupas extravagantes.

Boa parte das canções foi escrita em uma floresta perto da casa da cantora e refletindo seu estado psicológico após sofrer ataques e ameaças de morte pela internet. A maior parte de MareridtI foi gravada nos Estados Unidos, onde pôde contar com a participação de Chelsea Wolfe em duas faixas, a produção de Dunn Randall (que já trabalhou com o Sunn O)))) e as hábeis baquetas de Aaron Weaver, do Wolves In The Throne Room. Outra parte, dedicada a gravação do material mais folk do álbum, foi gravado na Dinamarca, onde Amalie Bruun gravou ela mesma todos os instrumentos. O álbum também traz um misto de canções na língua materna de Myrkur e em inglês.

Mareridt é um pesadelo, de fato, para quem encara o black metal de forma estrita e não admite flexibilização do conceito musical. Mas se você já superou os anos 80 e acha que horror, niilismo, peso e a beleza de algo sombrio estão mais ligados a aspectos estéticos abstratos – e não a níveis de distorção, vocais guturais e blast beats –, a obra de Myrkur será uma realização artística interessante. Uma mulher ajudando a fazer um gênero que se dizia extrema reconhecer que há muito mais fronteiras para investigar. O black metal não chegou ao limite ainda.

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1 comentário em “Myrkur – Mareridt (2017)

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