2017 MPB Nacional Resenhas

Nina Becker – Acrílico (2017)

Arranjos que se chocam, free jazz e pré-bossa com guitarra. Nina Becker na dianteira da vanguarda nacional

Por Lucas Scaliza

Você já parou para pensar na lógica de construção das estradas, rodovias, vicinais e autobahns e demais vias para veículos dotados de potentes motores? Uma pista vai, a outra vem, uma ao lado da outra. Que sejam três ou quatro pistas para uma mesma direção. Logo ao lado, ali, paralelamente a você, há mais uma faixa de asfalto para os carros e caminhões que trafegam na direção oposta. Às vezes, um carro sai da sua pista e se choca frontalmente com quem vinha do outro lado. Quase sempre resulta em tragédia.

Acrílico, novo disco de Nina Becker, é mais ou menos assim. Ao ouvir esse álbum me senti o tempo todo indo em uma direção, acompanhando o fluxo da voz de Nina e da base mais elementar da harmonia. Mas em todas as faixas existiram instrumentos ou arranjos que pareciam vir na direção contrária, bagunçando e dificultando a audição. Claro que essa dificuldade não ocorre como algo negativo, como algo errado, mas como uma experiência, testando não só novas possibilidades, mas também, mesmo que indiretamente, a capacidade de nosso raciocínio e de nossas emoções em unir as coisas, mesmo que pareçam se chocar constantemente.

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Mas vamos do começo. Nina Becker começou a desenvolver o álbum com uma ideia muito clara. Teria essa estética do preto e branco, que já vemos na capa dele e, quem sabe, será transportada para o projeto audiovisual com direção de Felipe Nepomuceno. Além da voz, seria um clássico trio de baixo (Alberto Continentino), piano (Rafael Vernet) e bateria (Tutty Moreno), como as bandas clássicas da década de 1950. Mas eis que ela meteu uma guitarra (Pedro Sá) e até sopros nervosos no meio dessa receita e o que já tinha potencial para uma música bastante avançada abriu as portas para o vanguardismo de vez.

Resumindo: não bastou resgatar a estética e o formato de banda cinquentista; ela faz de Acrílico um genuíno disco de MPB e samba com um inesperado (e talvez não-consciente) DNA do The Mars Volta. O Metá Metá não está sozinho nessa experimentação forte, afinal.

Quase toda faixa tem algum elemento que podemos dizer que vem para fazer contraponto à toada natural da música. Na suave “Acrílico” é o próprio vocal adicional de Nina, em que seus “Para-para-pará” servem como arranjo e como o carro que vem na direção contrária. O piano é quem faz isso em “Despertador” e o papel recai no sopro na intensa “Na Quebrada”. “Caramelo da Nostalgia” parece mais um sambinha gostoso, mas aí trombone e um piano free jazz comparecem pra bagunçar a nossa noção de cadência e harmonia. Em outras faixas, não é como se as coisas se chocassem, mas o som das pistas ao lado invade a sua via e o motorista/ouvinte de Acrílico é obrigado a seguir sempre com um olho no retrovisor. E não uso a palavra “retrovisor” aqui para chamar a atenção para algo retrô ou saudosista. Não é essa a experiência que Nina nos proporciona, amigos.

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Há faixas para ficar na memória por outros motivos também. “O Seu Azul” é sofisticada em tudo e a excelente percussão desafia o acompanhamento dos “burros que batem panelas”. Tem o corpo roqueiro que “Zebra Dálmata” vai ganhando, uma guitarra no wah-wah e outra mais estridente. “Grão de Sal” é toda desconstruidona mesmo, livre. Já “Voo Rasante” é mais direta e reta, dando espaço para guitarras desfilarem e se complementarem, mesmo quando o piano aparece para levar um improviso de jazz à parada.

Acrílico é o quarto disco solo de Nina Becker, mas sua discografia conta também com uma parceria com a Orquestra Imperial e outra com Marcelo Callado. Em todas essas experiências ela mostrou ser uma personalidade em que o termo MPB como definição é geral demais para ela. Acrílico corrobora essa perspectiva de sua obra e ainda ultrapassa alguns limites rock, samba e jazz se combinam de forma que nenhuma terminologia daria conta. E assim Nina vai ganhando a dianteira nessa via que é a música brasileira.

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