2017 blues country Resenhas

Van Morrison – Roll With The Punches (2017)

Esqueça o recente álbum dos Stones: é assim que se faz um álbum de covers com paixão

Por Gabriel Sacramento

Quem curte o Phil Collins deve lembrar de quando ele decidiu fazer um álbum de covers da Motown e clássicos de soul em 2010, mas sem a pretensão de criar algo novo. Pelo contrário: o músico quis recriar os sons da época exatamente como foram gravados. Collins foi fundo e dispensou até produtores, exercendo a função ele mesmo. Sete anos depois, o irlandês Van Morrison surge com uma ideia bem parecida: produzir a si mesmo em um álbum de covers com o objetivo de resgatar o som de décadas passadas.

Morrison vem de um bom álbum, Keep Me Singing (2016), em que ele explorava jazz, country e blues. Só que em Roll With The Punches, o cantor produziu o álbum buscando uma abordagem mais honesta, sincera, tradicionalista e literal do saudosismo que já perpassa sua obra há muitos discos. Se no anterior sua produção fez com que as faixas nos guiassem pelas referências que ele experimentava, neste, além das músicas, temos todo o projeto sonoro para nos direcionar. Ele fez de tudo para soar como nos anos 50 e 60, sem nenhum tipo de inovação, cantando covers com participações pra lá de especiais como Jeff Beck – com solos que farão você abrir um grande sorriso – e Jason Rebello (que inclusive gravou com o Collins em 2010).

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Michael Donald

Os grandes destaques do álbum são, portanto, o seu trabalho de engenharia de áudio e mixagem. São muitos nomes envolvidos e todos eles trabalharam sob o comando do Van para alcançar o feel de álbuns antigos, utilizando técnicas de posicionamento de microfones para captar muito do som de sala e amplificadores especiais para emular os timbres com pouco tratamento dos instrumentos na pós-produção. É possível notar que a mix do álbum varia bastante de acordo com os estilos abordados, mas preza sempre pela leveza e por fazer as canções crescerem em virtude da performance. Afinal, vale lembrar, nos tempos antigos, as bandas tinham que gravar muito bem ensaiadas, em poucos takes, pois não existiam essas facilidades dos softwares de hoje em dia.

A faixa-título é um blueszão clássico original do Morrison, com instrumentos bem divididos no panorama e um timbre especial de guitarra que rouba a cena. “I Can Tell” surge com a bateria no lado esquerdo da mix, o baixo do lado direito e o vocal centralizado, o que dá uma sensação de uma banda ao vivo. Outros destaques são: o jazz de “Too Much Trouble”, o blues “Goin’ to Chicago” – que começa com um baixo muito timbrado – e a também original “Fame”, que tem melodias marcantes que chamam a atenção para a letra sobre a fama e suas consequências.

Das 15 faixas, apenas cinco são originais de Morrison. O álbum é composto majoritariamente por faixas de blues, mas também passeia pelo country (“Transformation”) – que lembra o que o Morrison fez nos últimos álbuns -, jazz, rock e rhythm and blues. Mesmo sendo anacrônico, o álbum não perde energia em nenhum momento, nem descamba para a artificialidade de covers que só focam a execução fria como os do Rolling Stones no ano passado. Há muita disposição e vigor transmitido para o áudio, por meio de uma produção cuidadosa que trabalhou bem as execuções dos instrumentos e o senso de dinâmica e feeling na hora da gravação. O álbum recria o som das décadas anteriores, mas também a paixão dos compositores que se dedicavam à música inteira e intensamente.

Os fãs continuam sem ter do que reclamar. Mesmo que os álbuns anteriores do irlandês não sejam necessariamente fracos, Roll With The Punches acrescenta um gás a mais à carreira dele por ser um álbum tão bem acabado e produzido. Uma volta às raízes feita com amor e não por obrigação a fim de evitar o ostracismo.

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3 comentários em “Van Morrison – Roll With The Punches (2017)

  1. Excelente resenha, um discão lindo, coloco ele no topo da lista de discos de covers, perdendo apenas para o From the Cradle do Clapton.

  2. Pingback: Curtis Harding – Face Your Fear (2017) – Escuta Essa!

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