2017 Metal Resenhas

Moonspell – 1755 (2017)

A história do terremoto e do tsunami de Portugal em um épico do metal gótico

A banda portuguesa de metal volta ao século 18 para contar a história de um grande terremoto que sacudiu a península Ibérica em 1755, matando quase 90 mil pessoas e destruindo Lisboa e parte de Algarve. Como consequência do tremor, um tsunami abateu Portugal e um incêndio tomou conta do que restou da capital portuguesa. Até hoje é o maior tremor já registrado na Europa. O terror do trauma é transmitido pela banda com um dos melhores esforços em termos de metal gótico e sinfônico. Não é preciso se aprofundar muito para notar como 1755 soa mais interessante e criativo do que Extinct (2015). A faixa introdutória tem mais de 5 minutos de pura atmosfera, colocando sua intensidade roqueira na voz de Fernando Ribeiro e nas orquestrações, sem guitarras à vista. Sabemos que estamos diante de uma ópera metal de verdade. Não faltam ocasiões em que o trabalho do tecladista Pedro Paixão mereça aplausos.

Moonspell_2017

Mas não tema, pois as seis cordas distorcidas e com afinações baixas de Ricardo Amorim dominam quase todo o restante do álbum. Faixa após faixa, os portugueses nos dão uma bela dose de metal épico, com riffs poderosos e preenchimentos de cantos corais que realmente evocam imagens grandiosas em nossa mente. O baterista Miguel Gaspar está um animal atrás do kit, conferindo um ritmo sempre empolgante, fazendo com que nada fique demasiado arrastado e nem contemplativo demais.

Fernando Ribeiro trocou o inglês pela língua materna. Ainda pode ser estranho ouvirmos seus vocais guturais cantando em português e não no onipresente inglês que domina o cenário metaleiro e a discografia do Moonspell, mas em 1755 serve como mais um recurso que os diferenciam do restante e prova certa coragem. Nem mesmo o Angra em seu clássico Holy Land (1995) teve ousadia de cantar em português. No caso dos lusitanos, é especial ouvi-los cantar versos como “A terra treme” e “Culpado, culpado” com tanta violência e sabermos exatamente o que dizem.

Enquanto Extinct tinha influências de industrial e caía no esquemão comercial do Nightwish (composições pop com roupagem pesada), dessa vez a banda fez um discão para metaleiro nenhum botar defeito e sentir todo o peso do que cantam mais ou menos como o Sirenia faz. A única faixa mais comercial é “In Tremor Dei” e mesmo assim não decepciona, ainda mais com a participação do cantor Paulo Bragança fazendo ótimos vocais limpos. Já “Abanão”, “Desastre”, “1755” e a hardcore “1 de Novembro” são para fazer todo mundo entrar na rodinha de pogo. Já “Ruínas” é mais direta e melódica, numa linha mais Therion e “Todos os Santos” surge como uma das melhores e mais equilibradas composições deste trabalho conceitual.

O público brasileiro pode se relacionar com 1755 de mais uma forma ainda. “Lanterna dos Afogados”, um clássico dos Paralamas, ganhou um cover caprichado de mais de 6 minutos, com guitarras enormes, piano melódico, passagem em clima de trilha sonora dissonante, e toda a atmosfera gótica típica do Moonspell.

Seja você fã ou não dos lusitanos, 1755 vale a pena pela capacidade de manter o ouvinte preso a ele e por espalhar um episódio histórico de Portugal como um épico musical. Embora seja uma terra de escritores clássicos de mão cheia – e aí é impossível não pensar no Os Lusíadas de Camões –, o Moonspell consegue fazer um álbum divertido e que soa grande, mas não megalomaníaco.

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