2017 Indie Resenhas Rock

The Horrors – V (2017)

A diferença que faz um produtor em um álbum

Por Gabriel Sacramento

É um fenômeno: está sendo cada vez mais comum entre as bandas de rock o recrutamento de produtores ultrafamosos do mundo pop. Só este ano, tivemos o Liam Gallagher e o Foo Fighters chamando Greg Kurstin (Adele, Sia), o Queens of The Stone Age trabalhando com Mark Ronson (Bruno Mars, Lady Gaga), o Killers com o Jacknife Lee (Taylor Swift) e Stuart Price, entre outros. Temos discutido isso bastante nos podcasts também. Afinal, o quanto esse fenômeno pode afetar o rock?

Claro que, no mundo pós-moderno em que vivemos, é comum que os produtores se especializem em diversas linguagens, para não ficarem para trás e poderem trabalhar bastante. Nem todo mundo fica preso a essas definições comuns de gênero e prefere enxergar a música de cima, já que tudo que é lançado como música é, indiscriminadamente, primeira arte. No entanto, sabemos que a experiência que se tem com um álbum que fez mais sucesso tende a influenciar totalmente a visão musical de um produtor. Como por exemplo o Butch Vig depois do Nevermind (1991) ou o Quincy Jones depois do Thriller (1982). Também é comum que os produtores sejam procurados para repetir a fórmula que deu certo e aplicar uma abordagem semelhante, como o Steve Albini, que até hoje sempre é muito requisitado para fazer o mesmo trabalho do anos 80 e início dos anos 90 com o rock alternativo mais lo-fi. Por isso, querendo ou não, os produtores acabam pendendo mais para um lado, um gênero e uma forma de fazer as coisas.

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Dean Chalkley

Sem mais delongas, vamos ao álbum em questão: V, o quinto trabalho do The Horrors, uma das bandas mais interessantes atualmente, resgata elementos do pós-punk e do rock garageiro de décadas passadas. Mas diferente da maioria das bandas revival, eles conseguiram criar uma assinatura sonora facilmente reconhecível. Para o novo álbum, o grupo contratou Paul Epworth, produtor conhecido por trabalhar com a Adele em alguns de seus singles mais famosos (e mais legais) como “Skyfall” e “Rolling in the Deep”.

A banda vinha de um álbum pesado, denso, atmosférico e claustrofóbico, chamado Luminous (2014), produzido pelo colaborador de longa data Craig Silvey. V traz um frescor diferente, algo que só pôde acontecer por causa da mudança de produtor. Temos canções mais comerciais e palatáveis como “Point of No Reply” que impressiona pela abordagem enxuta e leve, contrastando com canções pesadas nos efeitos e na reverberação, soando quase como uma espécie de trilha sonora de algum filme sobre alienígenas, como é caso de “Machine” e “Ghost”.

O trabalho de Epworth merece destaque. O produtor conseguiu extrair beleza e um senso de ordem no caos de uma forma incrível: a banda explora melodias preciosas e identificáveis para os ouvintes, mesmo que imersas em uma massa sonora impenetrável, psicodélica e ruidosa. Epworth faz a banda soar bonitinha e calma em alguns momentos – sem abrir mão da assinatura -, mesmo que essa calmaria seja só um impulso para chegar melhor aos ruídos. O produtor traz uma forte noção de formato-canção, devolve o foco aos vocais, mesmo que o faça mantendo a força e funcionalidade dos outros instrumentos. É diferente, por exemplo, da abordagem do produtor do álbum Skying (2011), que deixa em muitos momentos as melodias competirem com o instrumental.

Percebemos que a banda está fora da zona de conforto quando ouvimos a forma como algumas faixas crescem, indo de algo bem mais simples em termos de arranjo ao caos típico deles – como em “It’s a Good Life” – e com algumas ideias bem fora da caixa (para o padrão deles) sendo bem usadas, como os violões em “Gathering”. Mérito também para a mixagem do trabalho, que consegue alternar esses climas, sem deixar que as faixas percam vida e que falte coesão entre as ideias.

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As performances dos membros da banda também merecem menção: o vocalista Faris Badwain tem seu jeito pessoal de interpretar que, aliado a forma como sua voz soa, deixa o álbum ainda mais próximo dessas referências pós-punk/new wave. O trabalho do baixista Rhys Webb também é muito bom: seguro, firme e preciso, acrescentando notas onde necessário, mas sem perder a noção de que seu instrumento é o marcador principal da harmonia. Já os teclados de Tom Furse e as guitarras de Joshua Third revezam entre si na confecção de múltiplas camadas e atmosferas pesadas que alternam com climas mais leves e fazem o som da banda ser tão interessante e singular.

V é um álbum bem produzido, que reflete a maturidade do trabalho dos britânicos, que ficam cada vez melhores. Trazer um cara do mundo pop foi fundamental para que eles pudessem exibir um pouco mais do talento como compositores e não somente como artesãos de ruídos psicodélicos. Temos um dos álbuns mais intrigantes do ano, que representa uma evolução com relação ao que a banda vinha fazendo, feita com competência e destreza. Não é o melhor, mas certamente é o mais equilibrado e mais bem pensado como produto.

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