2017 Pop Resenhas

Maroon 5 – Red Pill Blues (2017)

Esse álbum durará menos na sua cabeça que as stories no seu Instagram

Por Gabriel Sacramento

Neste episódio do podcast, discutimos a questão da inteligência artificial e como isso tem afetado a indústria fonográfica. Depois da gravação, fiquei pensando em algumas coisas que falamos com relação à mecanização do processo de produção de singles para a publicidade: esses singles tendem a seguir padrões que visam um objetivo específico que não é a admiração de um conteúdo artístico relevante, mas sim a divulgação de uma marca ou um produto. Pois bem, me parece que a música pop está cada vez mais focada na publicidade e divulgação também e menos no poderio artístico.

Se para a geração Snapchat é mais importante os delírios momentâneos do que algo que vá durar mais que vinte e quatro horas, e com a internet nos tornando cada vez mais imediatistas, a música pop também cresce como supridora dessa necessidade. Temos álbuns enormes – lançados às vezes em versões de luxo -, totalmente insípidos, construídos para agradar quem ouvir inteiro uma vez apenas no máximo. Com isso, o poder da música que fica com você, que te eleva, te faz sorrir, ter uma experiência quase metafísica, que te faz lembrar dela depois de meses e que se relaciona às boas memórias pessoais dá lugar à música que pode servir como perfeita trilha para alguma outra coisa que seja o real foco, tamanha é a sua simplicidade e incapacidade de prender a atenção.

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Em Overexposed (2012), o Maroon 5 já falava sobre abraçar o seu lado pop sem medo. Realmente, aquele foi o seu primeiro álbum ultrapop genérico, que diluiu bastante a proposta de bons álbuns que já tinham lançado como Songs About Jane (2002) e Hands All Over (2010). Foi lá em 2012 que começaram a usar dezenas de produtores, misturar pop com hip hop e tornar as bases cada vez menos analógicas, seguindo a receita de como deixar um álbum no padrão de mercado no século XXI. A banda que começou bem e virou popzão pouco original. Já vimos esse filme muitas vezes não é mesmo, Coldplay e Train?

Desde então, tem sido fácil compreender o que a banda tem feito, porque basicamente é mais do mesmo. V (2014) não apresentava nada de arriscado e seguia colocando a banda como referência no circuito “pop simplório para tocar em shopping”. Mesmo com “Sugar”, a faixa que provavelmente é a melhor já escrita pelos caras até aqui – ganhando até da grudenta “Moves Like Jagger” -, o álbum não impressionava. Pois bem, Red Pill Blues é um V volume 2. Ou um Overexposed volume 3, se você preferir.

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A estratégia para a produção é a mesmíssima: vários nomes famosos, mesmo que alguns que já tinham uma parceria estabelecida, como Ryan Tedder e Max Martin, não tenham sido incluídos. O que, obviamente, não significa muita coisa, já que os produtores são mais marionetes que seguem uma lógica robotizada do que comandantes participando ativamente. A produção concentra seus esforços em tornar tudo palatável e preparado para as FMs da vida: tudo comprimidinho, limpo e bem espaçado, com arranjos que seguem uma lógica bem fácil de compreender – suprimindo qualquer surpresa que os arranjos poderiam ter – e foco nos ganchos, que é o que mais importa. Ou seja, canções que imploram para serem lembradas. A timbragem da voz de Adam Levine soa cada vez mais como muita gente por aí e menos como ele mesmo, junto com a forma como o cantor imposta e interpreta. Em muitos momentos, me lembrei da voz do The Weeknd.

“Plastic Rose” tem um certo senso de profundidade na forma como a mix balanceia os instrumentos, com uma certa clareza na definição dos instrumentos e melodias mais sutis que são até interessantes. “Closure” é super longa por causa de um inusitado instrumental jazzy de – pasmem! – oito minutos. Sim, me senti ouvindo outro álbum durante esse tempo e chequei compulsivamente o player para ver se ainda estava em um álbum do Maroon 5. No entanto, para cada acerto, temos vários erros: “Best 4 U” é supergenérica em suas melodias e harmonias, “What Lovers Do” não é nada cativante e ainda possui uma base que parece chupada de “I Can’t Feel My Face” do The Weeknd, “Wait” é açucarada demais e desinteressante no seu desenrolar e “Whiskey”, mesmo sendo climática, desagrada por comparações do tipo “she kissed me like a whiskey” na letra.

Red Pill Blues tem diversos rappers que são subaproveitados e com versos que perdem o senso de urgência que teriam em outras canções. Future, A$AP Rocky e Kendrick Lamar são bons rappers, nomes de peso na cena, mas que dentro do contexto do álbum servem apenas para complementar o aspecto pop polido, que segue estritamente as regras para agradar a maior parte do público. Principalmente Lamar, que mesmo com discos sensacionais na carreira solo, parece gourmetizado, sem uma contribuição ativa para o som do álbum. Não parece nem um pouco o Lamar de “DNA”, por exemplo, e isso ilustra muito o quanto os músicos envolvidos no álbum abrem mão de si mesmos para dançar conforme os padrões.

Red Pill Blues em termos mercadológicos é um álbum bem produzido, que é feito exatamente para alcançar o público típico que espera isso do Maroon 5 desde que eles nos mostraram que eram capazes em 2012. Mas em termos artísticos, temos um álbum que segue a maré e não se importa em oferecer um registro sincero, honesto e representativo. Não há nada singular, humano e pessoal, mas sim algo estritamente calculado para servir às playlists de “hits do verão” – que, por sinal, já possuem trezentas músicas absurdamente iguais. E cansa antes mesmo de chegar no seu final, tendo acima de tudo um problema de excesso de faixas no repertório. Red Pill Blues não vai abalar as estruturas da música pop, nem mudará a vida dos fãs. É só mais uma diversão fugaz e momentânea da geração Snapchat, das Instagram stories que duram 24 horas. Só que eu duvido muito que essas músicas terríveis durem um dia todo na sua cabeça.

Maroon 5 at the Airbnb Open Spotlight

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1 comentário em “Maroon 5 – Red Pill Blues (2017)

  1. Pingback: Rachel Platten – Waves (2017) – Escuta Essa!

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