2017 Metal Resenhas

Red – Gone (2017)

Novo álbum tenta ser muita coisa e acaba sendo irregular

Por Gabriel Sacramento

O Red veio ao mundo com um álbum sensacional: End of Silence de 2006 era tudo que o metal alternativo cristão precisava para se afirmar com coragem em meados da década passada e poder figurar entre álbuns de rock “seculares” de gravadoras maiores nas prateleiras. Mesmo que essa separação entre “secular” e “religioso” seja uma tremenda bobagem – na real, é tudo música -, ela ainda existe e norteia a indústria, tanto na fase de criação dos trabalhos como na fase de vendas. End of Silence foi a banda chegando com tudo no mercado, com um dos álbuns mais bem feitos da década: equilibrado, impactante, reflexivo e sobretudo com a assinatura deles. Um álbum que, em mundo justo e ideal, deveria ser reconhecido como um dos mais interessantes dos nossos tempos.

Desde o primeiro álbum para cá, a banda acertou mais que errou, é verdade. Seu único lançamento que caiu para algo mais genérico e sem identidade – como o que o Skillet fez em seus últimos – foi o Release The Panic (2013). No mais, a banda retornou em 2015 com um álbum de respeito: of Beauty and Rage, que marcou também a volta do produtor e co-compositor Rob Graves. O novo álbum também traz Graves na produção, o baterista Joe Rickard de volta, uma capa sensacional como já é tradição e chama-se Gone.

Ao ouvir a discografia da banda, percebe-se que eles têm plena noção da sonoridade que sabem que os fãs esperam e brincam com isso, experimentando de vez em quando com ideias novas, mas sempre olhando para o som dos primeiros álbuns como referencial. Rob Graves na produção ajuda a banda nesse senso de auto-conhecimento. E se of Beauty and Rage apresenta uma abordagem mais soturna e dicotômica do som da banda, Gone tenta um frescor mais modernoso e mira várias direções, porém sem a mesma consistência.

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Isso porque a banda se perde no meio do caminho, exatamente no miolo do álbum – a partir da faixa 4 – quando tenta inserir elementos novos demais que comprometem a tão sagrada identidade. A faixa-título possui umas eletronicidades que soam ok, mas um tanto deslocadas no contexto do álbum. Principalmente porque elas não são desenvolvidas no restante do álbum, aparecendo meio jogadas só aqui. Mais deslocado ainda é o cover da – pasmem! – Sia de “Unstoppable”. A faixa ganhou uma roupagem de metal e não ficou ruim, mas não acrescenta muito ao conceito do álbum no geral e é tão necessário quando Caetano Veloso fazendo cover de “Come as You Are”. Temos também “Coming Apart”, que soa excessivamente etérea e melosa para o contexto do álbum e ficamos com a mesma sensação de que soaria melhor em outro tracklist. Resumindo a ópera, os problemas da produção não são de gravação, arranjos ou mixagem, mas sim de escolha de repertório. Se o álbum fosse um EP, a chance de acertar em tudo seria bem maior.

Dito isso, preciso complementar que os acertos do álbum são bem expressivos também. Graves trabalhou bem na parte mais pesada do álbum, prezando por manter a veia metal intocada e a sensação de caos e instabilidade – com variações malucas de dinâmica -, que perpassa canções como “Step Inside, The Violence” e “Chasing Your Echo”. O produtor também conseguiu potencializar as qualidades da banda e explorar isso para convencer o ouvinte acerca da força das canções: temos arranjos que enfatizam os riffs sólidos e grandiosos, as típicas e impactantes explosões abruptas, crescendos inteligentes, bem como momentos de alívio para as melodias. Os gritos do vocalista Michael Barnes estão muito bem colocados – acrescentando uma ideia de angústia perante os problemas tratados nas letras – e sua performance no geral é muito satisfatória. As guitarras foram gravadas e mixadas para soarem pesadas, com uma distorção concentrada, forte e grave junto com afinações baixas e riffs simples criados para oferecer uma noção de peso que sustenta as faixas ao invés de serem usados como ganchos.

A mixagem também balanceia sinergicamente as guitarras com a bateria, com pratos bem altos e brilhosos, usados para complementar a sensação incômoda de barulho e destruição sonora. Além disso, temos uma das marcas mais interessantes do som deles desde sempre: a forma como usam violinos e outros instrumentos orquestrais no meio da porradaria, dando um aspecto sinfônico ao metal e metálico à sinfonia. Ou seja, basicamente, a abordagem da produção na parte mais agressiva do álbum segue a mesma lógica dos primeiros álbuns com uma ótima administração dos ingredientes que fazem o Red ser agradável aos paladares dos fãs antigos.

Gone é um álbum que tem momentos de inspiração, acertos interessantes na produção, mas que tem problemas quando viaja demais e acaba perdendo de vista o objetivo final. Ainda assim é um álbum superior ao Release The Panic e ao Unleashed (2016) do Skillet, mesmo que seja um dos piores álbuns que o Red já lançou até então. Também não temos faixas memoráveis aqui como “Pieces”, “Breathe Into Me” ou “Fight Inside”, sendo provável que esse álbum não seja lembrado depois de um tempo. Mesmo não tendo poder de fogo comparável ao que já fizeram, ainda assim, temos fé que eles ainda possam render mais no futuro, pois claramente a fonte ainda não secou.

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