2017 Resenhas Soul

Curtis Harding – Face Your Fear (2017)

Soul e o diálogo perfeito entre o antigo e moderno

Por Gabriel Sacramento

Depois de impressionar ouvintes antenados com um ótimo álbum com sabor de rock’n’roll, soul e punk rock em 2014, Curtis Harding está de volta. Dessa vez, ele vem acompanhado de dois produtores famosos no cenário indie: Sam Cohen, o cara que produziu o Witness do Benjamin Booker, e o ótimo Danger Mouse, que trabalhou com U2, Red Hot Chili Peppers e Norah Jones e que está cada vez mais cirúrgico em seus trabalhos. O álbum novo foi inclusive gravado no estúdio do Mouse. Se o primeiro álbum era muito bom e trazia diferentes direcionamentos musicais em uma verdadeira salada de referências, Face Your Fear é mais focado no soul.

Porém, quando afirmo isso, não quero incorrer no erro de afirmar que Curtis é só mais um a fazer soul anacrônico, como tantos outros por aí. Estamos falando de um álbum que respeita o soul e a tradição do estilo, mas que acrescenta toques de modernidade, de esquisitice, de um quê psicodélico e espacial – elementos pouco óbvios de se combinar com ingredientes anacrônicos. Quando tudo isso é processado junto, temos um dos melhores álbuns do ano, que estabelece um diálogo sensacional entre elementos de diferentes momentos históricos. Uma obra prima coesa e direta ao ponto.

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A sensacional “Wednesday Morning Atonement” abre o álbum com uma letra que estabelece uma metáfora entre um pai que não está presente para os filhos e um artista que deixa a rotina maluca afastá-lo do real sentido da arte. A faixa é cercada por um clima lento, swingado, compassado pelo baixo e com ótimos vocais do Curtis que estão envoltos em uma reverberação linda com efeitos sensíveis e lisérgicos – que lembram muito alguns efeitos usados na voz da Norah Jones no Little Broken Hearts (2012), álbum produzido pelo Danger Mouse.

A faixa-título tem um groove lento meio reggae, com o baixo e a guitarra sutilmente combinados servindo de base para voz de cabeça (aquela que parece falsete, mas não é) swingada. “On and On” acelera um pouco as coisas e chama para dançar com uma voz mais seca e percussões maravilhosas. “Go As You Are” reforça o aspecto lisérgico, com um wah-wah viajante que contrasta com o baixo bem límpido. “Dream Girl” é dançante também com uma linha de baixo irresistível que lembrou as linhas matadoras do Automaton (2017) do Jamiroquai.

Face Your Fear é um álbum que estabelece alguns elementos principais e isso é claramente passado para o ouvinte em poucos minutos de audição: o baixo é explorado como instrumento chave dos arranjos e condutor dos grooves, junto com a voz no topo da hierarquia, e o álbum tenta resgatar a sonoridade e o feel de álbuns antigos de soul music, enfatizando detalhes específicos, inclusive com algumas referências meio spectorianas aqui e ali. Mas tudo é feito com muita excelência. A tridimensionalidade da mixagem permite que percebamos os instrumentos em suas posições específicas no espaço do início ao fim, como se estivessem arrumados na frente do ouvinte. 

Além de estabelecer o aspecto anacrônico, a mix também é bastante criativa quando tem que ser. Um exemplo disso é a forma como a voz do Curtis ganha efeitos diferentes no decorrer do álbum, de uma forma pouco óbvia. Tudo isso gera um design de som muito particular: o álbum é daqueles que tem um som memorável, com uma atmosfera muito peculiar, não somente canções fortes. É como se ao ouvir o álbum você fosse transportado para um determinado lugar no universo que só ele pode te levar.

A produção manteve apenas as canções mais fortes, nenhuma parece estar sobrando ou deslocada. Tudo é muito bem acabado em termos de arranjo, temos todos os instrumentos cooperando ativamente para a proposta, sem nenhum estar sendo mal utilizado. Houve um cuidado notável também na captação dos instrumentos: eles soam sensíveis às faixas, leves quando precisam ser e fortes quando precisam também. Além da performance do Harding, que é enérgica e intensa nas faixas mais dançantes, swingada e relaxada nas outras.

Comparando esse álbum com a abordagem da Beverley Knight no seu último álbum, por exemplo, percebemos o quão arriscado foi para o Curtis diversificar dentro da proposta. O da Beverley se contenta em executar o soul do jeito que é, sem grandes intervenções – abordagem que o Van Morrison seguiu muito bem também em seu mais recente. Já o Harding usa as referências de soul como um instrumento e as submete a seu senso de identidade – algo muito mais difícil de fazer. O Danger Mouse foi muito importante para isso. Ele sabe como poucos explorar modernidade e extrair elementos modernos de um artista sem que isso soe genérico e custe demais ao artista. Aqui a dosagem de inventividade é a suficiente para fazer com que entendamos que é um álbum atual, feito para o hoje aos moldes antigos.

Face Your Fear é melhor do que Soul Power e não é simplesmente pelo fato do Curtis ter escolhido um ponto focal desta vez. Mas a forma como ele fez isso que é o fator decisivo. O novo álbum com certeza não fará os fãs sentirem falta das outras facetas do cara, porque entendemos que ele está perfeitamente confortável brincando com o soul sem deixar o gênero e as convenções sufocarem a sua sensibilidade artística.

BY Bart Heemskerk
Bart Heemskerk
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1 comentário em “Curtis Harding – Face Your Fear (2017)

  1. Ouvindo esse disco e comprovando os elogios dados a ele. Otimo mesmo!!!

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