2017 Folk Resenhas

William Patrick Corgan – Ogilala (2017)

Billy Corgan, Rick Rubin e a simplicidade do folk intimista

Por Gabriel Sacramento

“Um Billy Corgan como você nunca ouviu”: esse podia ser o slogan de divulgação de Ogilala, novo trabalho do vocalista do Smashing Pumpkins, que agora com seus 50 anos resolveu experimentar ainda mais e arriscar com sua carreira solo. Para tanto, o cantor decidiu escrever canções confessionais – segundo ele seu trabalho mais confessional desde Siamese Dreams (1993) – de folk, convidando o produtor Rick Rubin, um dos mais notáveis em atividade. Ainda segundo ele, o álbum é como uma “carta de suícidio”, em que ele escreveu o que quis, sem medos e receios.

Seu último álbum – TheFutureEmbrace (2005) – era uma boa ode aos bons tempos de sua banda anterior, ao mesmo tempo em que trazia experimentações dele com elementos eletrônicos. Ogilala é um álbum diferente por si só: as mudanças já começam no nome que assina o álbum, que agora é William Patrick Corgan e não mais o apelido. Com isso e com o som do álbum, Corgan pretende dizer que não depende da sua banda e do que já alcançou com ela em termos artísticos. Cantores de rock fazendo isso não é uma onda recente, já tivemos Bruce Dickinson, Robert Plant e mais recentemente, o Steven Tyler.

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Alpha Plan

Diferente dos seus tempos de trabalho com Butch Vig, nos quais, o Corgan passava horas e horas no estúdio buscando o seu som, o processo de produção foi álbum foi mais espontâneo e, consequentemente, mais artístico. Isso por causa da influência do estilão zen do Rick Rubin, que é conhecido por ser minimalista e espirituoso para extrair um eu do artista que muitas vezes nem ele mesmo conhece. Inclusive, o Corgan disse nas entrevistas que abriu mão do controle e se deixou ser levado totalmente pelo produtor.

E a abordagem do Rubin é extremamente pessoal, subjetiva e de uma lógica invertida de produtores do pop: ao invés de extrair o belo e o mais forte e explorar isso, Rubin extrai as imperfeições e inseguranças do vocalista e faz elas jogarem a seu favor. Temos um álbum com poucos instrumentos e um só protagonista: William Patrick Corgan. Sua voz soa crua, aguda, sempre acompanhada ou do piano ou do violão – instrumentos que possuem uma solidez corporal interessante na mix – e com elementos adicionais. A voz do Corgan reflete sua vulnerabilidade como cantor que precisa ser o centro do arranjo, bem como sua falta de uma técnica precisa. A voz dele soa na cara, com seus pontos fortes e suas imperfeições – até desafinações – apresentados da mesma forma. Não há mascaramento, nem polimento, nem ajustes para soar bonito: o objetivo é soar básico, rústico e, acima de tudo, Billy Corgan.

As letras são boas e devem ser, afinal, trata-se de um álbum intimista. Em “The Spaniards”, Corgan canta “me leve do jeito que eu sou”, o que diz muito sobre essa questão do eu-lírico se descobrindo ainda mais e nos pedindo para aceitá-lo como ele é. Em “Half-Life of an Autodidact”, ele fala que demorou 40 anos para “acordar” e outros 9 para se livrar da negatividade e da escuridão. “Zowie” foi escrita depois da morte do David Bowie, em um período que Corgan refletiu bastante sobre o cantor britânico. Em “Aeronaut”, o cantor fala de novo diretamente com o ouvinte e percebemos o nível de proximidade que o álbum decide criar: “você não vai lamentar comigo?”.

O álbum é cheio de baladas melancólicas, algumas até com um certo tom de bucolismo. Algumas melodias, como as de “Aeronaut”, se fossem lançadas por algum cantor pop famoso, tipo o James Blunt, não soariam estranhas. A produção crua do Rick Rubin foi decisiva para fazer com que percebamos isso, dando ênfase às melodias e letras, enquanto que as harmonias são simples sequências de acordes, sem muito destaque para a instrumentação ou para nenhum instrumento em especial. Se os Pumpkins são conhecidos pelo shoegaze e o primeiro álbum do vocalista até brinca com isso, Ogilala contraria a noção de muralha sonora.

Diferente de outros álbuns folk e íntimos produzidos pelo Rubin – como o My Favorite Faded Fantasy (2014) do Damien Rice -, o novo álbum do Billy Corgan não é bem feito e nem tenta ser. Se o álbum do Damien aproveita a boa voz do cantor para explorar dinâmica, suas interpretações apaixonadas e crescendos fantásticos com a instrumentação – tudo isso para criar vínculo com o ouvinte -, Ogilala chega a ser frustrante por ser linear e tosco, sem grandes sacadas, mas só a essência das canções como foram pensadas originalmente. E esse é o grande objetivo. A frustração do ouvinte, de suas expectativas e de sua noção de surpresa, é a verdadeira surpresa do álbum e é por isso que é tão intrigante e curioso. Um álbum difícil, como uma pedra bruta que não sofreu lapidação, mas que se sustenta como uma obra artística segura e sincera. Um álbum imperfeito sobre um cara imperfeito para pessoas imperfeitas. 

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