2017 Pop Resenhas

Rachel Platten – Waves (2017)

Pop padrão com um pouco mais de maturidade nas letras

Por Gabriel Sacramento

Existem críticos musicais e fãs de música que são conhecidos por serem terminantemente contra música pop e artistas populares. Acabam criando barreiras contra esse tipo de som e não conseguem ver méritos de jeito algum. É verdade que o gênero tem seus defeitos e vícios; devemos ponderá-los criticamente, mas é imprudente desconsiderar o que é popular justamente pela grande quantidade de gente e atenção que atrai. Entender a música que é popular em um determinado período – seus méritos, deméritos e idiossincrasias – é uma ótima forma de fazer um estudo da maior parte dos ouvintes de música – que mais alimentam a indústria -, sobre quem são eles e sobre como pensam a arte. Entender a música pop dos anos 60 nos ajuda a traçar um raio x da sociedade da época, da mesma forma que entender a música do século XXI nos ajuda a compreender melhor nossa sociedade. Tudo começa com uma simples pergunta: por que as pessoas gostam tanto desse álbum/artista?

A americana Rachel Platten se encaixa no rótulo “música popular do nosso século”. Desde o lançamento de Wildfire no primeiro dia do ano passado, ela vem recebendo uma atenção interessante: as pessoas têm se identificado fortemente com a mensagem motivacional de canções como “Fight Song” – inclusive, a faixa tem sido usada em diversas situações, de eventos esportivos à campanhas eleitorais. “Stand By You” também fez um tremendo barulho, mas “Fight Song” se tornou quase um hino da cantora pela recepção tão calorosa. Em entrevistas, a cantora fala com orgulho sobre as histórias de fãs que têm conseguido superar dificuldades da vida com ajuda da canção.

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Rohan Kelly

Mesmo que a música seja calcada em ideias de melodias/harmonias/ritmo batidas e não marcantes, a letra tem gerado um efeito legal e isso deve ser levado em consideração. Diante disso, Rachel foi inevitavelmente questionada se o novo álbum viria com mais músicas de empoderamento e motivação. A resposta dela foi que não necessariamente, já que dessa vez ele se sente diferente e tem que ser honesta com sua música. No entanto, Waves traz sim esse tipo de mensagem, que está se tornando uma marca registrada na carreira da cantora.

Waves é o segundo álbum lançado pela Columbia e contou com diversos produtores, dentre eles Ryan Tedder, do One Republic, e o duo norueguês Stargate, que trabalhou no Confident da Demi Lovato. “Perfect For You” abre o álbum com um ótimo groove no refrão, comandado pelo baixo, e uma interpretação muito boa de Platten, que combina swing com uma certa indiferença de alguém que tentou ser perfeito por causa de outra pessoa, mas agora não se importa mais, como consta na letra. O resto do álbum é fraco em termos musicais e tem momentos interessantes em termos de conteúdo lírico. “Broken Glass” retoma a veia estimulante, falando sobre a força da união entre as mulheres. Nada tão forte e marcante quanto as letras da Alicia Keys, por exemplo, mas não deixa de ser uma letra digna de nota. “Loveback” apresenta uma Rachel um pouco mais madura que a do último álbum, falando sobre demônios internos que ela tem que enfrentar. Outros versos interessantes estão em “Good Life”, como: “que tal ficarmos no presente e quebrarmos os nossos celulares”. O objetivo da faixa é valorizar o momento e a espontaneidade, ao invés de planejar tudo (o curioso é que, em termos musicais, sua proposta vai na direção totalmente contrária).

A produção de Waves mantém tudo no padrão pop feminino, com ênfase na voz dela – que tem produtores especiais só para trabalhar isso – e nas letras. Isso tanto nos arranjos, quanto na mixagem sempre bem esparsa. Os instrumentos não são desenvolvidos, permanecendo unidimensionais do início ao fim, sendo usados apenas como um componente para formar preguiçosas e simplórias bases harmônicas e rítmicas. E as nuances vocais não são nem tão diversas assim, até porque os instrumentais das faixas não requerem uma grande multiplicidade de nuances.

A visão de mundo de Rachel nesse álbum é mais realista e mais pé-no-chão do que em Wildfire. Isso talvez tenha sido o maior diferencial entre um álbum e outro. A cantora, que passou por momentos mais difíceis desde o último álbum, não resolveu esconder isso dos fãs por parecer mais obscuro e pessimista, mas apenas adaptou ao seu já conhecido estilo de escrever. A administração desse tom diferente, junto com o tom mais feliz, foi bem feita pela produção do álbum e gerou um registro bem sincero e pessoal – bem melhor do que os “I love you, I love you, babe” insípidos de bandas como o Maroon 5Waves pode desapontar por ser mais um álbum pop padrão genérico, mas tem letras que demonstram um potencial e talento por parte da cantora e uma maturidade que pode gerar coisas interessantes no futuro. Vale a pena ficar de olho.

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2 comentários em “Rachel Platten – Waves (2017)

  1. quais méritos/deméritos do musicar pop?Gabriel

    • Olá, lima. Depende de cada álbum. Se você analisar o álbum do Harry Styles desse ano, por exemplo, verás que o mérito dele foi fugir do óbvio e se arriscar explorando facetas diferentes. Já o demérito mais comum em se tratando de pop é a falta de inventividade, criatividade e vontade de fazer algo pessoal e não padrão.

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