2017 Pop Resenhas

Alexia – Quell’altra (2017)

Com Quell’altra, Alexia se firma como um dos grandes nomes da música italiana

Por Eder Albergoni

A música italiana sempre foi um grande celeiro de cantores e cantoras intérpretes. Munidos da vanguardista produção que se dava no país no início da década de 1960, os italianos deram o sentido pop que a música na Europa tomaria dali em diante. Não bastava só o que vinha da Grã-Bretanha ou América. Raramente não associada ao cinema de Antonioni, Fellini, Mario Bava e Bertolucci, toda efervescência juvenil ganhava relevância nas vozes de Rita Pavone, Sergio Endrigo, Pepino di Capri, Bobby Solo, conquistava fãs e acumulava versões ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Essa característica italiana de produzir música praticamente criou um novo jeito de pensar música, abriu novas possibilidades para artistas de vários países do continente, massificou os festivais de música, ajudou atualizar a verve francesa além da chanson das paisagens da Riviera e foi embrião da disco music, que tomou as rádios se multiplicando em ramificações de estilos AOR dos anos 80, e mais pra frente, do eurodance dos clubes e playlists dos anos 90. Aqui é o eurodance que mais nos interessa.

Alexia surgiu nessa onda meio clubber, meio coletânea de rádio FM de público jovem. Fez muito sucesso com “Uh La La La” e “Gimme Love” alavancando a quantidade de vendas de disco meramente médios. Ou se tanto, bom no caso de Fan Club (1997), se valendo totalmente do potencial que o disco tinha de tocar sem parar nas festas e matinês. Também se valia inteiramente de aspectos eletrônicos que remetiam a Giorgio Moroder nos áureos tempos de From Here to Eternity (1977).

Porém, a onda passou e depois de Happy (1999) a carreira de Alexia esfriou, assim como a carreira de todo artista da eurodance, pra não dizer que acabou ou foi enterrada magistralmente. Ainda que tenha lançado discos com quase nenhuma repercussão, Alexia se mostrou inteligente ao mudar o rumo de tudo que fazia decidindo cantar em italiano, sua língua natal. Alexia (2002) é o primeiro lançamento em italiano. Esse disco trazia “Dimmi Come” que foi segundo lugar no Festival de Sanremo. Mas o melhor ainda estava por vir. “Per Dire Di No” do disco seguinte Il Cuore A Modo Mio (2003) foi a vencedora do festival.

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Ao longo dos lançamentos, a simbiose de Alexia com a música italiana ia aumentando e aos poucos os elementos clubber e eletrônicos iam dando espaço ou ganhando variações mais clássicas que aproximavam Alexia de cantoras como Laura Pausini, Fiorella Mannoia, Chiara Civello e até Mafalda Minnozzi. Quell’altra é o maior momento de Alexia desde o título de Sanremo. Ou mundialmente, desde de “Gimme Love”.

Logo de cara, “Beata Gioventu” abre o disco com discurso e arranjo bem atuais, aproveitando bastante do contexto geral pelo o qual passa o mundo tanto artística quanto culturalmente. “Fragile Fermo Immagine” reforça a retomada e a atualização da carreira de Alexia ao mesmo tempo que remonta a referência a clássica e pop lista de cantoras do país. “Tu Salvami Ancora” traz uma esforçada Alexia compositora numa batida eletrônica que suscita a Alexia clubber, porém com mais elegância. A música que dá nome ao disco, também composição de Alexia, tem intensidade e característica perfeitas pra se posicionar ao lado de tudo o que foi melhor produzido nos últimos tempos em termos gerais.

“Innamorati Come Mai” traz uma levada mais solta e alegre, numa baladinha divertida e ótimo riff de violão. “La Cura Per Me” além de efetivamente mostrar a Alexia dos tempos de Fan Club, foi também escolhida como hino da Parada Gay de Milão. “Diversa” é outra das composições de Alexia para o álbum, e aqui verdadeiramente a gente entende que essa Alexia é diferente da Alexia de “Uh La La La”. Todo o potencial vocal, o arranjo em crescente até o ápice do refrão, as vozes mais pro final da música, fazem parecer outra cantora e nos dá a impressão que deixamos alguma coisa passar.

O disco termina uma versão genérica em inglês de “La Cura Per Me”, mas nada que atrapalhe o excelente trabalho construído. Alexia surpreende quem já nem se lembrava dela, ou que só a conhecia como One Hit Woman. Mais que isso, Alexia soube se moldar as tendências e fazer, ao tempo e ritmo dela, uma carreira de altos mais que baixos, mantendo a expectativa em um patamar real. Dessa forma, essa transformação foi aos poucos montando um novo quadro de referências que nos envolve, em grande parte, a determinar as diferenças e o ponto de virada total de sua jornada. Pode não parecer, ou parecer bem menos que isso, mas Alexia honra a história da música italiana com Quell’altra.

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1 comentário em “Alexia – Quell’altra (2017)

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