2017 Rap/Hip-Hop Resenhas

Wiz Khalifa – Laugh Now, Fly Later (2017)

Mais um ótimo trabalho do rapper que dificilmente erra

Gabriel Sacramento

O hip hop já não é mais o mesmo. Nos últimos anos, assistimos o sucesso de Kendrick Lamar e o surgimento de artistas que desafiam o óbvio. O estilo está em alta no mainstream – essa playlist não me deixa mentir – e nunca foi tão diversificado como hoje: tem rap gangsta para quem curte, tem rap politicamente consciente, tem rap para quem viaja com substâncias alucinógenas, tem para quem quer valorizar suas raízes e tem para quem quer experimentar com outros gêneros. Em 2017, tivemos Vince Staples e Tyler, The Creator com discos criativos e não-ortodoxos, Future com álbuns mais conservadores e o DAMN do Lamar, que tem quase um subgênero só para ele. Ser fã de hip hop é empolgante em nossos tempos. Tem opção para todo mundo no cardápio.

E o Wiz Khalifa é um dos destaques da geração mais nova do gênero. O legal sobre o Khalifa é que, principalmente desde Rolling Papers (2011), o rapper ainda não errou a mão. Ele parece a cada lançamento saber exatamente o que quer e ir direto ao ponto. Se você leu minha crítica sobre seu último álbum, Khalifa (2016), sabe que eu considero as melodias o ponto forte da musicalidade dele. No entanto, sua nova mixtape, Laugh Now, Fly Later, chama a atenção para outro ponto forte dele: arranjos.

andrew chin
Andrew Chin

Um bom arranjo deve saber manipular a atenção dos ouvintes para fazê-los se focar em determinados aspectos da canção e compreender a hierarquia de importância dos elementos que fazem parte dele. Mas um arranjo também deve guiar o ouvinte em uma história como um roteiro ou um livro. Khalifa trabalha com bases comuns de hip hop nessa mixtape, com muito de trap, mas ainda assim o faz com uma construção de arranjos primorosa que gera sensações de forte expectativa, surpresa e recompensa no ouvinte. “Figure It Out”, por exemplo, é bem calcada no trap e consegue trabalhar bem esse senso de expectativa, desde antes dos versos começarem até quando estão se desenvolvendo, enquanto acompanhamos o esquema de rimas do rapper. Estamos sempre ansiosos pela próxima linha que complementa a rima e quando vem, ficamos satisfeitos, pois o rapper não cai em obviedades. No resto do álbum, Khalifa varia muito bem seu flow, indo mais rápido em alguns momentos, mais melódico em outros – quase como um Future em “Letterman”, por exemplo – e com melodias pegajosas e harmonias bem elaboradas, como sempre. Tudo isso para engrandecer seus arranjos e contar sua história da melhor forma possível.

Alguns recursos típicos como a repetição de versos específicos, efeitos especiais nos vocais e pausas da base instrumental para deixar a voz sozinha em primeiro plano são bem usados e administrados, de forma que não cansa o ouvinte.

Outro destaque dos arranjos é a inserção de elementos orgânicos de forma bem inteligente. “Royal Highness”, traz uma bateria “de verdade” e um feel de banda tocando. “Long Way To Go” lembra a abordagem do BadBadNotGood. A bateria volta a ser destaque em “City of Steel”, com viradas e grooves bem interessantes. O álbum é bem equilibrado entre faixas mais climáticas e orgânicas e outras profundas e focadas no trap. Com isso, dá pra notar um senso de anacronismo também, como se o álbum viajasse por formas de hip hop de diferentes momentos históricos.

A mixtape acabou saindo antes do aguardado Rolling Papers 2, que já está finalizado e logo deve ver a luz. Outro grande destaque é o fato de ser uma mixtape sem muitas participações, conta apenas com o nome do Casey Veggies na faixa de abertura e os produtores. O resto é o Khalifa sozinho. E o resultado é até algo mais diversificado dentro de si mesmo do que álbuns genéricos com 300 participações que ouvimos por aí.

O grande problema do álbum, que foi também o problema do último, são as letras. Mesmo que o rapper ainda tente uns comentários mais relevantes acerca da questão da legalização do uso da maconha, no geral, suas letras acabam caindo na mesmice e na exaltação constante à droga como se ele só tivesse isso para dizer. A repetição na mesma tecla acaba cansando o ouvinte, o que é o contrário do que ele conseguiu com a parte musical do trabalho.

Laugh Now, Fly Later é um ótimo trabalho de organização e rotação de ideias. Mesmo não tendo a pretensão do Drake em sua última mixtape, de explorar elementos de outros gêneros e estrangeirismos, o álbum se sustenta pela forma como é estruturado, sempre focando o dinamismo e evidenciando o quão bom o seu artista é. Melódico, agressivo, soberbo e multifacetado: mesmo sendo uma mixtape que provavelmente deve ser esquecida quando o RP2 sair – por causa do timing –, é mais um grande álbum para a discografia incrivelmente regular do rapper da Pensilvânia. Khalifa segue escrevendo seu nome na lista dos que valem a pena acompanhar.

Noam Galai
Noam Galai

 

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