2017 Eletronica Resenhas Rock

Lunatic Soul – Fractured (2017)

Nova criação de Mariusz Duda é como um laboratório. Ainda assim, dotado de sensibilidade

Por Lucas Scaliza

Vou falar para quem está chegando agora ao Lunatic Soul, talvez advindos do rock progressivo ou da banda Riverside, de Mariusz Duda, e não tanto para quem já está acostumado ao Lunatic Soul. Fractured pode ser como experimentar absinto pela primeira vez. Tem lá seus momentos de prazer, mas não é sempre fácil de engolir e o ápice de sua viagem pode ser uma experiência estranha.

É, de fato, música progressiva o que temos diante de nós, mas fugindo muito da lógica roqueira e abraçando a busca por batidas diferenciadas e uma utilização do baixo que lembre mais a música eletrônica, ou a música sintética em termos gerais. E essa porção sintética da música invade a produção e o álbum soa, na maior parte do tempo, limpo, calculado e frio. Não que Duda deixa de carregar Fractured de sentimentos e emoções. Está tudo lá: as linhas melódicas de voz, a orquestrações e o solo de guitarra em “Crumbling Teeth and the Owl”, o groove do baixo em “Anymore”, todos os arranjos sofisticados de “Blood On The Tighrope”, a beleza de “A Thousand Shards of Heaven” (que vai da balada acústica ao groove industrial e ao jazz). Mas mesmo com tantos elementos que buscam despertar uma resposta afetiva do ouvinte, é como se a música acontecesse em um laboratório.

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Isso não é um defeito. Embora quase ninguém goste de música fria, o Lunatic Soul não é frígido e arquiteta um ambiente para envolver o ouvinte. Como música progressiva feita por um cara do rock/metal, Fractured é muito asséptico; e como música eletrônica, se preocupa demais com a variação de arranjos e qualidade da composição, perdendo a objetividade que domina a cena eletrônica. É, assim, um álbum difícil de definir e que pode dar trabalho para o ouvinte chegar ao final e curtir nas primeiras ouvidas. Mas é como aquela garrafa de absinto: se tentar de novo, e de novo, até se acostumar não só com o gosto e com a queimação, mas com os efeitos de seu entorpecimento, passa a admirar sua companhia.

Fractured, por recusar a ser um disco explosivo e cheio de temas sonoros feitos para grudar em sua cabeça, serve muito bem como música ambiente de um tipo bastante estimulante intelectualmente, aliás. E se decidir ouvir para prestar atenção, vai perceber de Mariusz Duda é um progger incrível, preenchendo cada faixa de ótimos arranjos (destaque para a faixa-título e “Red Light Escape”) e ainda assim mantendo na mixagem um aspecto de sala vazia, como se houvesse um grande espaço entre cada instrumento que pudesse ser preenchido.

A faixa “Moving On”, a última do álbum, não é a mais complexa, mais exploratória ou mais longa, mas é a que melhor congrega sensibilidade e acessibilidade sem abrir mão da estética própria e tão bem construída ao longo das suas oito faixas. Enquanto todas as outras precisam contar com a boa vontade do ouvinte também, “Moving On” tem carisma para vender.

O disco todo é baseado em um conceito de voltar à vida (ou de viver) após um evento traumático. O próprio Duda passou por uma fase bastante complicada em 2016 tanto pessoalmente (a morte de seu pai) quanto com sua banda Riverside (morte do guitarrista Piotr Grudziński), e parece estar colhendo os frutos disso tudo há algum tempo, sejam eles bons ou ruins. O autor disse que seria o álbum mais acessível da discografia do Lunatic Soul e, bem, verdade seja dita, não é um disco fácil. Ele é, sim, absolutamente interessante, mas depende bastante de quem o ouve.

Contudo, apesar de certa frieza e de poucas músicas realmente acessíveis, é possível perceber como o músico polonês permeia o álbum de momentos que tentam romper a arquitetura desse laboratório e chegar ao coração de quem o escuta. Suas melodias vocais são realmente belas, assim como a inclusão de violões, de alguns crescendos, das partes orquestrais gravadas pela Sinfonietta Consonus Orchestra, conduzida por Michał Mierzejewski, e dos solos de sax feitos por Marcin Odyniec. É música mais para o cérebro do que para as emoções mais prementes do ser humano. Ainda assim, dotado de sensibilidade notável.

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