2017 Metal Resenhas

Cavalera Conspiracy – Psychosis (2017)

Insanidade, psicopatia, terrorismo e metal para incomodar

Por Gabriel Sacramento

É fato que os tempos malucos que estamos vivendo têm sido inspiração para produções artísticas super interessantes de diversos gêneros. Mas o que será que o metal, especialmente o metal extremo, tem a dizer sobre a contemporaneidade? Buscando responder essa questão, Max e Igor Cavalera lançaram mais um álbum da banda conjunta Cavalera Conspiracy, que é um balde de nostalgia para os órfãos do Sepultura old school.

Além de comentar sobre o mundo atual, os irmãos resolveram fazer um disco que mistura o som do Sepultura na sua fase Raiz (ok, não pude evitar o trocadilho) e elementos novos do metal underground que está em voga em 2017. Max se diz cada vez mais antenado no que está rolando e o Igor, mesmo que envolvido em outros projetos de música eletrônica, sabe deixar seu lado menos metaleiro de fora da equação. Para o álbum, os irmãos recrutaram Arthur Rizk, produtor que tem trabalhado em discos de bandas extremas como Inquisity e Power Trip. O primeiro álbum deles com o Cavalera Conspiracy foi Inflikted (2007), que mostrava os irmãos com um som pesadão de thrash metal, só que bem mais limpo e organizado que em álbuns mais recentes, como o anterior, Pandemonium (2014).

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Em Psychosis, o produtor Arthur Rizk trabalha bem o som típico da banda, só que levando ao extremo – com um pé no death metal -, criando um verdadeiro caos sonoro gigantesco. Mas também há uma certa preocupação maior com os climas das faixas, que soam ainda mais sombrias e obscuras que as do álbum anterior. Os arranjos balanceiam bem os riffs rápidos avassaladores de Max com momentos mais cadenciados, nos quais eles deixam os riffs soarem mais e enfatizam as notas. Também há espaço nos arranjos para momentos mais contemplativos, com ruídos e falatórios, que aliviam o ouvinte, ao mesmo tempo em que causam ainda mais desconforto.

“Insane” abre o álbum destruindo tudo. A faixa alterna momentos de menos velocidade com thrasheria convencional, mas a mensagem é transmitida: estamos diante de um álbum de thrash metal como deve ser. “Terror Tatics” é uma das mais fortes do tracklist, com vocais marcantes. Justin Broadrick, do Godflesh, contribui na ruidosa “Hellfire”, que começa com uma bateria mais tribal que fará os fãs do Sepultura esboçarem um leve sorriso. O arranjo da faixa dá mais ênfase aos vocais de Max, principalmente nos momentos em que as guitarras desaparecem. “Judas Pariah” é insana e soa como se 200 prédios estivessem desabando na sua frente. Já na faixa-título, Igor traz uns elementos tribais que gravou enquanto esteve na África. Do meio para frente, a faixa é tomada por um senso de libertação, com um riff diferente de todo resto do álbum e mais liberdade para experimentação com timbres e ruídos.

O álbum trata de diversos temas, mas todos amarrados por um certo pessimismo impregnado na visão de mundo de seus autores. “Insane” é sobre a desordem total do mundo com Donald Trump presidindo uma das maiores nações e atentados terroristas na Inglaterra e França. Faixas como “Terror Tatics” e “Excruciating” são explicitamente sobre terrorismo e sobre como os “impérios do medo” estão dominando nossos tempos. “Hellfire” é sobre drones e como eles são usados para bombardear lugares como Afeganistão e Paquistão. O próprio título do álbum veio da concepção de mundo de Max, já que, segundo ele, estamos vivendo em uma “era de psicopatia” com psicopatas em todo lugar. A única faixa que destoa do resto é “Crom”, que é sobre o filme Conan, o Bárbaro (1982).

A mixagem do álbum é muito boa, pois transmite bem em termos sonoros o conceito de terror que as letras querem passar. Isso é alcançado com doses cavalares de guitarras distorcidas, que soam propositadamente baixas e emboladas, enquanto a bateria de Igor soa mais alta – isso tudo é para gerar a sensação de desordem e incômodo. Mas também temos momentos em que as guitarras assumem o controle e soam mais altas e definidas. A mix também lida muito bem com os ruídos, fazendo com que eles estejam infiltrados nas bases e complementem toda a balbúrdia. É importante dizer que mesmo com toda a brutalidade, o álbum não cansa, pois temos apenas nove faixas, que são bem administradas pelo produtor Arthur Rizk para não enfadar. A única diferente em termos de mix é justamente a faixa-título, que soa especialmente como se estivesse envolta por uma superfície de ruídos que sobrepõem-se até mesmo às guitarras.

Psychosis é o álbum mais extremo da banda, tendo bem menos do thrash de Arise (1991) e Inflikted (2007) e mais do underground lo-fi e super obscuro dos primeiros anos da dupla Cavalera em ação no Sepultura. Para os fãs dos irmãos, é mais um ótimo álbum para degustar e perceber como nunca deixam de fazer esse tipo de som e como não deixaram de ser bons fazendo isso. Ao mesmo tempo, é um álbum que não tem medo de experimentar e une inteligentemente toda a temática aterrorizante típica de metal extremo com a situação do mundo no século XXI. Seria melhor se temas como terrorismo e psicopatia existissem só nas manifestações artísticas, mas infelizmente a vida acabou imitando a arte e vice-versa.

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