2017 Rap/Hip-Hop Resenhas

Jaden Smith – SYRE (2017)

Talentoso rapper estreia com álbum irregular

Por Gabriel Sacramento

Jaden Smith é mais um artista que vive com o peso nos ombros de ser filho de um outro artista bem maior que ele na indústria – sim, Will Smith. É uma vantagem e ao mesmo tempo uma grande desvantagem, que traz um conjunto maior de responsabilidades e faz com que simplicidades da vida se tornem bem mais difíceis. Porém, Smith não quer se acomodar com isso e busca fazer o seu nome a cada trabalho em que se envolve. Sua carreira na música acaba de se tornar de fato oficial: o rapper lançou seu primeiríssimo álbum de estúdio.

Antes de discutir os erros e acertos do álbum, vale ponderar a dificuldade inerente de ser ativo nas duas indústrias – a saber, a cinematográfica e a musical. Afinal, nem todo mundo é um David Bowie e mesmo que tenhamos vários nomes como Jamie Foxx, Ludacris e Jared Leto, pouquíssimos conseguem ser acima da média em ambas as mídias. Talvez não seja nem necessário. Ou simplesmente, nem todos estejam aptos a isso – o que reforça a tese de que talvez seja exclusividade de gente de outros planetas mesmo, com raras exceções. Enfim.

jaden

Syre é o nome do meio do rapper e virou o título do álbum pois ele quis vendê-lo como uma experiência que vai mostrar um eu diferente do que vemos por aí. E realmente é, justiça seja feita. Até mesmo para quem acompanha o rapper na sua carreira nos cinemas e entrevistas nas revistas, o álbum pode surpreender. Syre é resultado de uma parceria com uma série de produtores e conta com participações de gente como sua irmã, Willow Smith – também cantora e atriz -, o rapper A$AP Rocky, entre outros.

E o álbum começa muito bem com quatro faixas sensacionais. Elas possuem letras como título, que juntas formam a palavra “blue” e que representam o estado de tristeza e melancolia de Jaden – uma sacada fenomenal. “B” começa com melodias angelicais, oníricas e infantis que contrastam com a rispidez dos versos que Jaden dispara logo em seguida. As faixas se complementam, assim como seus títulos, enquanto “B” apresenta Jaden “se apresentando” com o seu rap, “L” é uma demonstração de uma entrega dedicada e de como expressar sentimentos cortantes com rimas precisas. Já “U” impressiona pelas variações de clima, com Smith indo de algo mais melodioso a algo bem mais agressivo – inclusive com um rapping memorável lá pelos dois minutos, junto com acentos impactantes do instrumental orgânico. A faixa tem momentos semi-apoteóticos, que ficariam perfeitos se fossem escolhidos para fechar o álbum. “E” fecha a sequência com referências às outras faixas, seja nos versos, no piano executando uma melodia que já apareceu ou com vocais de fundo de outra faixa surgindo. 

Mas depois dessas quatro faixas absurdas de tão boas, o álbum cai no marasmo e se arrasta até chegar ao final. A produção intercala faixas fracas com outras redundantes, que não acrescentam muito ao que Jaden vinha construindo. Salvo algumas exceções. São elas: “Batman” com um ritmo ágil e referências à cultura pop – a letra é bem legal com o Jaden meio que dialogando com o personagem das HQs e filmes. A outra é “Icon”, que é uma das melhores, com um senso de auto-reconhecimento que beira a arrogância, é verdade, mas com uma força musical impressiva. Seu rapping aqui está impecável. ”Watch Me” também resgata o brilho nos olhos do ouvinte por apresentar uma base de rock, que funciona perfeitamente bem, estabelecendo uma riqueza de elementos e chamando a atenção para a sensibilidade muito boa da percepção dos produtores.

A produção de Syre acertou em criar um senso quase cinematográfico de transição entre blocos de músicas: essas transições são similares à transições suaves de planos em um filme. Com esse senso bem estabelecido, os arranjos brincam com o ouvinte e isso faz com que algumas faixas soem especialmente surpreendentes. Também conseguem explorar a voz do artista principal de forma crua e visceral, com pausas que deixam a voz isolada e bases super minimalistas. No entanto, os produtores se perdem quando tentam enfatizar melodias e explorar uma persona do Jaden mais genérica, para soar identificável à grande massa de ouvintes – por exemplo, nas canções que utilizam bases de trap. Isso acaba sendo o calcanhar-de-aquiles do álbum e pesando na experiência. Syre poderia tranquilamente ter sido um EP excepcional, só com as primeiras faixas ou simplesmente um álbum com, sei lá, sete faixas a menos. Além do fato de serem 17 canções, tudo fica pior porque algumas delas são muito exigentes.

Boa parte das letras do álbum é sobre as tristes experiências amorosas do cantor (em um momento, em especial, ele literalmente para de gravar em um acesso de raiva, talvez ao ponderar sobre o que estava vocalizando no momento), mas também algumas sobre a nova namorada, com um certo senso de esperança. Em alguns momentos aqui e ali, ele se destaca como um bom letrista, seja com referências inteligentes à figuras importantes como Malcom X e Martin Luther King – e com isso, inevitáveis comentários sociais interessantíssimos – ou com menções a trabalhos de outros rappers como Kendrick Lamar.

Jaden Smith chega no disputadíssimo circuito americano do hip-hop, com um álbum irregular que consegue causar muita animação e muito tédio, em doses discrepantes, inclusive. A parte interessante do álbum mostra que o rapper não precisou de algo extremamente cerebral ou experimental para criar uma sonoridade cativante e digna de ser lembrada, mas a parte chata do álbum passa uma borracha em tudo isso e mostra o rapper em um excesso de preguiça e comodismo. Não deixa de ser um álbum curioso, que evidencia que ele tem muito talento para o hip-hop e capacidade de não ser mais um, mas faltou uma boa mentoria para guiá-lo no caminho certo.

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