2017 Folk Indie Resenhas Rock

Grizzly Bear – Painted Ruins (2017)

Eles não se curvaram ao pop, e entregam um disco ainda mais reflexivo e inquietante

por brunochair

Em 2012, após muito tempo de inanição musical, voltei a procurar por novos artistas. Descobri uma gama deles, que estavam produzindo música interessante fora do mainstream, ou seja – não apareciam na televisão, tampouco nas rádios. Bandas independentes, que conseguiam sobreviver nesse caos através da internet e divulgação dos seus próprios apreciadores. Quem estava por fora disso tudo era eu, esperando as músicas caírem do céu, sem torrent nem indicação. Grizzly Bear foi um desses grupos que conheci em 2012, através do disco Shields. Obviamente que a qualidade musical e a veia alternativa chamaram a minha atenção, e aquele tornou-se um dos discos mais ouvidos naquele ano.

No mesmo ano, conheci outras bandas e projetos: Tame Impala, Beach House, Alt-J, Wild Nothing, Alabama Shakes. Artistas bem diferentes entre si, mas representavam um novo cenário da música indie/alternativa do início da década, algumas delas com características bastante experimentais. Cada grupo aqui citado tomou um rumo bastante distinto no disco que veio a seguir. Mas, entre eles, uma semelhança: uma aproximação com o pop e o mainstream. E o Grizzly Bear? Depois de cinco anos, nenhum sinal do disco novo. E o que viria a ser o próximo Grizzly Bear: seguiria a tendência de alguns grupos citados, flertando com o cenário pop? Ou manteria a verve alternativa?

Para o resenhista que vos escreve, parecia uma possibilidade concreta chegar ao pop. Até porque, seguindo também uma tendência de várias bandas e artistas independentes, o grupo deixou de lançar por seu selo independente e assinou com a RCA. Mais um sinal da proximidade com o showbizz, com algo mais voltado para o mainstream? Que nada! Painted Ruins traz um Grizzly Bear tão alternativo, atrativo e hermético quanto qualquer outro álbum anteriormente lançado pela banda. Portanto, enquanto os seus pares, ainda de formas distintas, tentaram dialogar com a mainstream nos álbuns posteriores, o Grizzly Bear mergulhou ainda mais nas profundezas das composições, criando, a partir de um trabalho colaborativo, um disco bastante significativo.

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Vamos a uma análise das músicas?

“Three Rings” é a mais audaciosa do disco. No início, ela é uma colcha de sintetizadores que se sobrepõem e colocam o ouvinte em suspenso, desde o que esteja apenas prestando atenção na ambientação sonora, até aquele que percebe toda a inquietação de questionamentos e afirmações não tão afirmativas que estão dispostas na letra da música. Todos esses elementos irrompem num clímax promovido pelo solo de guitarra aos 3’36, uma das passagens musicais/experimentais mais bonitas desse ano e que faz o resenhista que vos escreve sempre ficar com os olhos cheios d’água. A faixa poderia arrastar ainda um pouco mais, parece faltar algo lá no final, mas não duvido que seja proposital – a esquizofrenia Grizzly Bear de encarar inícios, meios e fins. O cartesianismo não é com eles, não.

“Glass Hilside” também passa longe do convencional, tanto para a música alternativa e contemporânea produzida nos Estados Unidos quanto para o próprio Grizzly Bear. Na verdade, mais exatamente a primeira parte é dotada de estranheza. Lá pelos cinquenta e cinco segundos a banda retoma a loucura e escorrega para o interior de si, sem perder a mão. E a música alterna entre esses dois momentos até os três minutos, quando acaba por seguir um outro caminho (não tão distante, mas ainda assim outro) que leva a música a terminar por outro lugar, como a quase totalidade das canções do disco.

“Neighbors” não deixa de ser uma nova “Half Gate” (do disco anterior) por conta da tensão e de ser o musicão-da-porra-que-está-no-fim-do-disco. Ou seja, fórmula repetida, mas é musicão da porra, pô! A faixa termina com a seguinte frase: “não há muito o que dizer”, e retrata um relacionamento entre duas pessoas que moram junto (fisicamente) mas que não estão mais junto (em todos os outros sentidos). Terminou, it’s over. A ponte entre verso e refrão é outra pérola do álbum, outro lindo e emocionante arranjo que encaixa com a melancolia/neurastenia que invade o que não se consegue explicar em palavras.

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Aliás, um ponto forte na composição musical do Grizzly Bear é esse caminhar incerto pelos minutos que a definem. A faixa começa de uma forma, quando você percebe já foi para outra direção completamente distinta. Caso você ouça os primeiros trinta segundos e os trinta finais, não vai acreditar tratar-se da mesma canção. Mas é, sim. Além das já citadas aqui, também percorrem essa direção errante “Aquarian” (lá pelos 2’40” ela cai vertiginosamente de ritmo), “Cut-Out” (parece que a música começa pra valer lá pelos 1’40”) e nos 3’30” de “Losing All Sense”. Para um ouvinte acostumado ao rock quadradinho e/ou bonitinho, ouvir um álbum como Painted Ruins torna-se um desafio, talvez até um martírio.

“Systole” é outra faixa marcante, dotada de uma melancolia e reflexão significativas. Contudo, ela é mais linear, como também são a faixa intro “Wasted Acres” e a ótima “Morning Sound”. As primeiras músicas, por terem essa característica mais linear, não afasta o ouvinte desacostumado de primeira viagem, e ao mesmo tempo pode ter deixado os admiradores mais antigos da banda de orelha em pé. Mas era apenas um alarme falso. O disco termina com outra faixa bacana, “Sky Took Hold”, e que é um bom resumo dos conteúdos reflexivos do grupo – tanto no que se refere aos temas abordados quanto à musicalidade incerta e flanante.

 

Painted Ruins ganhou boas avaliações da crítica, mas não chegou a ser considerado como surpresa. Não é um disco fácil de ouvir em certos momentos, tampouco traduzi-lo em palavras. As ruínas pintadas poderiam ser um quadro abstrato em exposição no MoMa – daqueles de parar em frente e ficar ali, olhando por vários minutos, mão no queixo e aquela expressão de “hmmmmmm, interessante”. Pois é, traduzir o que sente e o que se ouve não é fácil. Por aqui, para este pobre resenhista latino-americano, a incerteza e o estranhamento desceram muito bem.

Uma bela obra de arte.

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1 comentário em “Grizzly Bear – Painted Ruins (2017)

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