2017 Pop Resenhas Rock

U2 – Songs Of Experience (2017)

Em novo álbum com carga política, o amor vira a arma da experiência

Por Lucas Scaliza

Songs Of Innocence (2014) era uma volta aos anos 80, à juventude, nas letras e na forma de soar. O U2 precisava disso e conseguiu mudar um pouco as coisas a seu favor. Não que houvesse muita inocência nas experiências que eles relataram ao longo daquele álbum três anos atrás, mas havia um certo deslumbramento, uma correlação de elementos sonoros, textuais e contextuais que afloraram a nostalgia em nós.

Bem no momento em que Bono, Clayton, Larry e Edge celebram seu The Joshua Tree (1987), agora com 30 anos, um adulto se aproximando da meia idade, recebemos o esperado Songs Of Experience, que é o atestado da idade e das possibilidades de uma banda como o U2. Musicalmente, a ordem ainda é soar jovem e renovado, como o Innocence, mas as letras são cartas de um Bono já maduro e confortável em sua inquietude de roqueiro bem sucedido.

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Anton Corbijn

Experience começa bem demais. “Lights Of Home” pode entrar para o hall das melhores faixas da banda, uma canção que não pega pesado, mas ainda tem DNA roqueiro e uma mix vintage. Os timbres de bateria, guitarra e baixo são excelentes e poderiam até terem sido usados com maior amplitude no disco. “You’re The Best Thing About Me” é o single com refrão com carinha de U2 (e a característica guitarra com delay de The Edge faz sua estreia). Já “Get Out Of Your Own Way” tem o refrão mais Taylor Swift que a banda já fez. Pode até soar levemente estranho se você lembrar de Taylor Swift ao ouvi-la, mas não deixa de ser uma forma de mostrar o rejuvenescimento. “The Showman” é meio Beach Boys, né? Uma referência que estava em Innocence também. A poderosa “American Soul”, a californiana “Summer of Love” e a ensolarada “Red Flag Day” completam a primeira parte do álbum, bastante animada, acessível, e mostrando como o rock do quarteto irlandês pode assumir diversas facetas interessantes.

Em seguida, temos um momento de transição. “The Little Thing That Give You Away” é uma balada emocionante. “Landlady” é outro momento mais ameno que poderia ser muito bem do Coldplay se não fosse a percussão esperta de Larry Mullen Jr., temperando a canção. E “The Blackout”, mais sintética, é outro ponto interessante do álbum.

Ao chegar em “Love Is Bigger Than Anything In Its Way” (que é uma boa faixa) você sente como se a banda estivesse se rendendo de novo ao amorismo que permeou How To Dismantle An Atomic Bomb (2004) e tirou a força de boa parte do disco. Até há passagens mais explosivas e fortes, mas a falta de uma pegada mais nervosa da metade para a frente (entenda: rock com distorção, menos polidinho) dá uma caída boa na vontade de eleger Songs Of Experience como um discão de rock de 2017.

“Ordinary Love” é quase insuportável de tão redondinha e genérica. E “13 (There Is A Light)” quase te obriga a ascender um isqueiro ou ligar a tela do celular e estender sua mão em direção ao céu. Bonita e tão igual a tantas outras baladas por aí. Não estamos falando de qualquer banda indie fofa, mas do U2, que tem clássicos como “With Or Without You” e “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” na discografia, mas também tem farpas como “Sunday Bloody Sunday”, “New Year’s Eve”, “Pride”, “Elevation” e regravou “Helter Skelter”.

De fato, é um disco cheio de amor e de positividade, não é agressivo e toca em menos feridas do que o anterior. A experiência, ao que parece, ou te faz perceber que o amor é realmente a resposta para tudo (e é o mais difícil de alcançar, por isso a banda tem que reafirmá-lo) ou te torna ingênuo num mundo onde quase nada é resolvido com amor, mas o amor sempre aparece como justificativa.

Muitas vezes o U2 foi do segundo time, falando de amor por amor. Dessa vez, levando em conta Songs Of Experience sozinho ou em conjunto com o irmão Songs Of Innocence, Bono & banda estão reafirmando o amor contra tudo o que há de mal no mundo, e por mal pode entender Donald Trump, a misoginia, os neonazis, o cerceamento da liberdade (com aval da população em nome de valores “conservadores” e “corretos”), a crise dos refugiados, desigualdade social e ódio racial. A carga política aparece até nas faixas mais doces.

“Abençoado são os ricos imundos, pois vocês só podem realmente possuir o que dão embora, como sua dor”, Kendrick Lamar provoca no fim de “Get Out Your Own Way”. Usam a música americana, e o rock, como metáfora para falar da união dos povos (ou das raças) em “American Soul”. Olham para a Califórnia não mais como aquela terra de esperança ensolarada, mas com desconfiança. “Ando pensando nas Costa Oeste, mas não nessa que todo mundo conhece […]. Nós temos mais uma chance antes que a luz se apague”, Bono canta em “Summer Of Love”. Falam sobre ter coragem de correr riscos para mudarmos a situação em que vivemos em “Red Flag Day”. E a “red flag” não é uma bandeira comunista, mas a banda prega sutilmente uma revolução. E “The Little Things That Give You Away” é sobre a liberdade que nos resta e o fim do mundo que pode já estar à nossas portas.

Innocence e Experience resgatam o U2 que tinha o que dizer na música, a banda que acabou sendo tão conhecida por sua boa música quanto por seu ativismo político. Uma dose de nostalgia, outra de realidade contemporânea. Antes era o IRA que tocava o terror na Europa; Agora temos Trump, Brexit, refugiados, Estado Islâmico, cerceamento de direitos. Logo na primeira faixa, Bono dá o tom: “Amor é tudo que nos restou”, mas é preciso ter experiência para saber usar essa arma.

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3 comentários em “U2 – Songs Of Experience (2017)

  1. Parabéns pela crítica, muito bem escrita, sua análise das canções, tanto por si só quanto em comparação com o disco anterior, ficou muito boa.
    Eu não estava gostando das músicas que já saíram como clipe (American Soul, The Best Thing e Get out Of Your Own Way), mas no contexto do álbum e no diálogo com o Songs of Innocence, elas funcionam muito bem.

  2. Pingback: Escuta Essa 61 – Veredito U2 – Songs Of Experience – Escuta Essa!

  3. Gostei mais de Song of innocence esse album está tão ruim que parece coldplay e radiohead.

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