2017 Eletronica Folk Metal Resenhas

Igorrr – Savage Sinusoid (2017)

O versátil caos francês, o Manu Chao do metal

Por Lucas Scaliza

As misturas sonoras são cada vez mais parte da música contemporânea em qualquer estilo e é delas que saem as coisas mais interessantes, que testam tanto a habilidade de seus criadores quanto a paciência dos ouvintes. Igorrr, o nome artístico de Gautier Serre, é um misto de metal extremo, música tradicional francesa, breakcore (um subgênero mais pesado do eletrônico) e canto lírico. É um caos total, beirando o nonsense, muito mais maluco e difícil de digerir do que o thrash retilíneo do Slayer ou o metal do System of a Down quando surgiu 20 anos atrás. Igorrr é, então, o Manu Chao do metal?

Igorrr

Como o franco-espanhol, Igorrr também desafia categorizações. Qualquer que seja a música de Savage Sinusoid ela usa mais que um dos gêneros citados. O liquidificador (que é a própria banda nessa metáfora tacanha) é do tipo industrial sem tampa, pois faz muito barulho, entrega doses elevadíssimas de tensão e espirra para todo lado as influências que despejaram em sua mistura. O eletrônico acelerado de “Opus Brain” recebe uma dose de canto lírico e termina moído nas hélices da thrasheria. “ieuD” então é esquizofrênica as fuck, não assentando em lugar nenhum. O canto de Laure Le Prunenec ocorre por cima dos bumbos de Sylvain Duvier, a voz gutural de Laurent Lunoir ora está seca, ora com efeitos de pós-produção eletrônica, e os últimos segundos dela soam como uma piadinha.

Essa é outra característica de Igorrr: mesmo que seja pesadão e que a estética da banda seja meio black metal, meio Prodigy, meio clássico soturno e meio clubinho underground, há humor nas entrelinhas de todo o álbum. Os gritos do vocalista simplesmente não soam como fúria ou desespero, mas como algum desarranjo mental (ou musical). Longe de mim dizer que há alguma graça em doenças mentais, não é o caso. A graça está em como tudo isso se desmonta. As guitarras com afinações baixas são cortadas por um violão clássico (“Spaghetti Forever”), o andamento metaleiro faz o ¾ da valsa e aí e a sanfona francesa sola como se fosse dela aquele reinado lírico. Eles estão mesmo fazendo isso, a sério, e com alto grau de dificuldade técnica, mas não é nada para ser levado a sério demais.

“Cheval” é um folk francês que parece que vai envergar para o rock a qualquer momento. “Va Te Foutre” é dissonante, acelerada e distorce o som do órgão para criar um efeito ao mesmo tempo sombrio e metaleiro. “Robert” trata-se praticamente de uma grande manipulação e edição de som. O pós-modernismo em Savage Sinusoid é tão grande que fronteiras são erguidas e transpostas quase que instantaneamente bem na nossa frente.

Gaultier Serre levou quatro anos para produzir Savage Sinusoid. Encontrou um baterista de pulso firme, pegada animalesca e veloz para dar conta de todas as partes de death metal, encontrou um cantor gutural com poder abstrato e uma cantora lírica que parece ser tão fora da casinha quanto ele. Fã de música barroca, trouxe até um cravo para o disco, tocado por Katerina Chrobokova, e um violonista clássico, Nils Cheville. Serre ficou responsável pelas partes eletrônicas e guitarras. Como multi-instrumentista, ele é parte da cena francesa e do metal extremo europeu há bastante tempo. Como vanguardista, dando uma de Hermeto Paschoal, colocou milho em um piano e deixou Patrick, sua galinha de estimação, tocar conforme seu bico quisesse, e fez música da melodia que a ave criou.

Por mais que se possa descrever faixas e o estilo geral do álbum, Savage Sinusoid é um marco para 2017 e deve ser escutado, apreciado e odiado. Não há texto que possa dar conta da esquizofrenia criativa promovida por esse artista. Aliás, Igorrr/Serre já pode escrever seu nome ao lado de outras bandas francesas que estão mostrando como variar o heavy metal, mesmo em suas formas mais estranhas, e seguir em frente. Nos últimos anos não faltaram elogios a Gojira, Alcest, Deathspell Omega, Les Discrets, entre outras.

É um dos álbuns mais interessantes que o metal produziu, tão coberto de seriedade quanto de ironia. Fica a critério do ouvinte decidir como lidar com tudo o que ele propõe – que não é pouca coisa. Daqui 10 anos, vai continuar tão excêntrico quanto é agora. Igual ao Manu Chao.

igorrr_2017

Anúncios

1 comentário em “Igorrr – Savage Sinusoid (2017)

  1. Pingback: Escuta Essa 62 – Os Melhores Álbuns de 2017 – Escuta Essa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: