2017 Folk Resenhas Rock

Neil Young + Promise of the Real – The Visitor (2017)

O tiozão mais prolífico do momento está de volta!

Por Gabriel Sacramento

Ah, o Neil Young, inquieto como sempre, mesmo aos seus 72 anos. Diferente do americano Bob Dylan – cada vez mais relaxado ultimamente -, desde 2010, ele tem brincado incansavelmente com nosso senso de expectativa por seus álbuns e bagunçado nossas cabeças. Em 2010, chamou Daniel Lanois, produtor conhecido por trabalhos com o U2, e gravou um ótimo álbum que apresenta majoritariamente ele e uma guitarra distorcida até o talo chamado Le Noise. Insatisfeito, reuniu-se com a banda Crazy Horse – que estrelou álbuns sensacionais da sua discografia – para mais dois álbuns de rock em 2012, Americana e o malucaço e lisérgico até o osso, Psychedelic Pill. Ainda insatisfeito, o tiozão arranjou uma parceira com a banda dos filhos do Willie Nelson – a maravilhosa Promise of the Real – e fez o The Monsanto Years (2015), uma delícia de álbum. Isso sem contar os outsiders: Storytone (2014) , cheio de arranjos orquestrais, o lo-fi A Letter Home (2014) e o minimalista Peace Trail (2016). Ufa, que carreira!

Durante todos esses anos de mudanças de rumos e de bandas, Young vem se aconselhando com o produtor e seu atual parceiro no crime, John Hanlon. Hanlon já havia trabalhado como engenheiro no Unplugged (1993) e os dois já têm uma parceria interessante. O novo projeto do tio é a terceira vez que ele se encontrou com os herdeiros do Willie Nelson – a segunda foi o álbum ao vivo Earth (2016) – e ganhou o nome de The Visitor.

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Se você também ouviu o álbum anterior da parceria e ficou surpreso com a forma como o Neil Young soa divertido e despojado, saiba que a culpa é principalmente destes jovens de 20 e poucos anos. O diálogo entre o Young de 70 e os jovens da banda é perfeito e tudo mediado pelo John Hanlon, que também produziu e mixou o novo álbum.

As guitarras sujas que parecem ter sido tiradas de alguma gravação de blues rock dos anos 60 abrem “Already Great” – que é uma resposta ao Donald Trump. Young começa declarando o seu amor pelos Estados Unidos e pela liberdade de expressão do país, para logo depois repudiar o novo presidente. A lentidão da faixa tem um efeito interessante na forma como se desenvolve, sem pressa, mas aos poucos convencendo o ouvinte. “Fly By Night Deal” é um rockzão bem animado, daqueles que fazem Neil Young parecer 30 anos mais novo. Young discursa aqui e o arranjo balanceia partes instrumentais bem desenvolvidas e interessantes com harmonias vocais e partes faladas. “Stand Tall” é um hard rock, com um vocal que lembra o Rob Halford em algumas músicas do Priest antigo e harmonias que parecem algo do prog rock anos 70. “Carnival” é cheia de malemolência e tem vocais falados e cantados. Temos ainda o blues “Diggin’ a Hole” e uma faixa de dez minutos para fechar – “Forever”.

John Hanlon faz uma trabalho bem interessante em The Visitor equilibrando basicamente duas bandas: a banda Promise of the Real, com guitarras mais cruas, timbres mais setentistas, momentos mais livres para desenvolvimento de arranjos instrumentais e solos; e a banda que construiu bases simples para o Neil Young contar histórias em forma de música, como ouvimos na última faixa do LP. Tudo isso é bem arranjado para fazer a banda e o Young brilharem concomitantemente e você encontrará blues, folk, country, hard rock e o rock típico do Neil Young e o Crazy Horse com um perfeito senso de coesão. Vale destacar que mesmo com tantas direções, tudo é feito com uma grande noção de simplicidade em termos de arranjo, ou seja, o álbum é direto ao ponto com relação a tudo que tenta apresentar. Assim como muitos outros álbuns que ouvimos por aí, não é um disco de singles que se destacam, mas de uma unicidade tão impressionante, que as faixas juntas se complementam e funcionam maravilhosamente bem.

Matt Kincaid
Matt Kincaid

Dito isso, precisamos considerar que o álbum é um dos menos ríspidos de Young nos últimos anos. O canadense tem experimentado diferentes formas de distorcer sua música e de soar garageiro à sua maneira, mas neste novo, ele soa tranquilo e relaxado com relação a isso. Os arranjos permitem que percebamos guitarras sujas aqui e ali – certamente, um alívio para quem sentiu falta delas em Peace Trail (2016) -, mas não são o único foco. A mixagem do álbum desafia o que a gente espera de um álbum de rock e balanceia bem essas múltiplas nuances, misturando guitarras distorcidas com pianos, com harmonias vocais e nunca deixando o álbum ficar fuzzy demais, como por exemplo, o Psychedelic Pill (2012). Mesmo que tenhamos e possamos sentir várias guitarras acontecendo, o álbum nunca cai para o exagero. Também é tudo mais convencional em se tratando de configuração de panorama e efeitos – o que contribui com o feel de banda tocando. Além disso, Hanlon mixou o álbum buscando criar uma sensação de leveza, bucolismo e rusticidade, que sugere pouco polimento de pós-produção, mas permite que percebamos todos os instrumentos com muita clareza e definição.

O grande problema de The Visitor é sua duração. A maioria das faixas passam de cinco minutos, mas tem resoluções simples, o que indica que poderiam facilmente ter sido encurtadas. Mesmo que percebamos ótimas ideias nos arranjos, alguns momentos caem na redundância total e desnecessária que beira a monotonia por causa de canções que não sabem quando acabar.

O novo álbum engrandece a banda que acompanha o Young da mesma forma em que continua engrandecendo o ícone canadense. O Lukas Nelson disse em uma entrevista que sua banda se sentia como a The Band, que já era uma banda excelente, mas ganhou projeção mundial quando acompanhou o Bob Dylan. Essa simbiose entre Young + POTR gerou o primeiro álbum que foi ótimo e esse segundo que também não faz feio. Neil continua com uma discografia absurdamente irretocável nesta década, mesmo que não consiga fazer a mesma coisa mais de uma vez. Sabemos que independente de qual for a banda com quem ele gravará na próxima vez, a probabilidade de ser bom é altíssima. E quem ganha é o ouvinte.

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