2017 r&b Resenhas

Miguel – War & Leisure (2017)

Novo álbum é maduro, político e ensolarado, mas não melhor que o anterior

Por Gabriel Sacramento

Miguel é outro dos arquitetos da nova onda que está bombando no momento: R&B alternativo. O gênero tem realmente dado o que falar e movimentado a música pop, evidenciando um esforço interessante dos artistas em inovar e soar diferenciado tendo como base o R&B. Além de estar sendo bem sucedida comercialmente, essa onda também tem gerado ótimos e criativos álbuns, como os vários que entraram para a nossa lista de melhores do ano passado. Dá para dizer que essa revolução do R&B junto com a do hip-hop têm sido as molas propulsoras da música negra nesta década.

Um dos fatores mais interessantes desse estilo é o fato de não ser baseado em uma cartilha de regras e mandamentos a serem seguidos. A ideia é a experimentação. E isso faz com que os artistas soem diferentes uns dos outros, mesmo que pertençam ao mesmo gênero. Por exemplo, se você analisar três dos grandes nomes que têm se destacado com esse tipo de som atualmente – Frank Ocean, The Weeknd e Miguel -, perceberá que, enquanto Ocean investe em bases diferentes e criativas e minimalismo, The Weeknd focava mais em atmosferas sombrias e o Miguel, o mais experimental de todos, fez de Wildheart (2015) o seu laboratório e fundiu diversos gêneros como rock, new wave, funk e música eletrônica. Outro fator interessante é o fato dos artistas mudarem bastante de álbum para álbum e possuírem bastante espaço para tentar novas ideias a cada trabalho.

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Seguindo isso, o Miguel também decidiu mudar. A primeira grande mudança é a adição de uma maior consciência política ao álbum, tornando War & Leisure o seu mais sério e engajado até então. A outra mudança significativa é a inevitável do som. O novo álbum é mais pop e menos inquieto que o anterior, mas isso não significa que Miguel tenha perdido a fórmula dos bons resultados. “Criminal” já abre o álbum com um acorde especial e um timbre especial de guitarra, que desemboca em uma base semi etérea e inconsistente no espectro. A faixa traz um rap regular e “qualquer nota” do Rick Ross. Na sequência, temos faixas ensolaradas e mais rítmicas, com mais elementos de pop: “Pineapple Skies”, “Skywalker” e “Banana Clip” – esta com algumas referências à versão mais tradicional do R&B.

Os arranjos com ideias pouco óbvias ainda estão presentes e gritam pela atenção do ouvinte. “Wolf” possui um ritmo soulful e sexy, “Told You So” tem um synth de outra década muito bem timbrado que parece ficar pulando de um lado para outro no panorama, além de uma guitarra que parece soar a quilômetros de distância por causa de um reverb bem expressivo no refrão. Temos ainda “City of Angels” com uma percussão impactante e uma guitarra distorcida bem baixinha acontecendo e “Now”, com uma guitarrinha solitária e pequenos sons que parecem advindos de alguma trilha de filme sobre alienígenas. A guitarra também é protagonista de “Come Through and Chill”, conferindo à faixa um aspecto climático e cool que casa com a letra.

Mesmo sendo um álbum menos livre para as possibilidades criativas, War & Leisure é uma boa demonstração de como Miguel continua buscando tornar o seu som singular. Se a mixagem de Wildheart é um dos principais destaques do trabalho, a mix desse novo álbum também é sensacional. Temos uma série de truques técnicos que servem bem à proposta: vocais cheios de delays, outros mais crus, guitarras timbradas de diversas formas – que sugere um ótimo trabalho de captação e engenharia de som também – e uma boa manipulação das frequências e sons para criar climas específicos que traduzem para a linguagem musical o que dizem as letras. Seja brincando com as mudanças de panning ou com efeitos modulados como chorus e flanger, a mix está sempre desafiando nossa noção de consistência espacial, como se os instrumentos não precisassem estar em um ponto definido no espectro tridimensional. A mix também varia de um som mais seco para algo mais reverberado muito bem, permitindo que possamos balançar com canções mais dançantes e refletir com os momentos mais contemplativos.

Quanto ao tema do álbum, o grande destaque é a forma como ele mistura o seu já conhecido estilo de escrita – falando sobre sexo e relações amorosas com metáforas ousadas – com aspectos sócio-políticos, dando a ideia de que esses temas não são difíceis, mas devem ser encarados como temas comuns, que podem ser pensados e discutidos por qualquer um. O exemplo maior disso é a faixa “Come Through and Chill”: a letra é basicamente um convite à pessoa amada para relaxar na casa do eu-lírico, mas no momento do rap do J. Cole, a letra conecta aquela história com a situação atual dos Estados Unidos de uma forma bem inteligente – o eu-lírico diz estar pensando no seu amor tão frequentemente quanto tem pensado sobre as condições de seu país sob o comando de Donald Trump. Em “City of Angels”, ele fala sobre a cidade onde nasceu, Los Angeles, e uma guerra ficcional que destruiria a cidade. “Told You So” também parece ter sido inspirada pela ideia de um armagedom e uma possível guerra nuclear – o que faz sentido se associada ao clipe. E “Now” é uma ode à liberdade, em que Miguel mantém um tom reflexivo, que lembra o tom da pergunta do Roger Waters na faixa-título de seu último álbum – Is This The Life We Really Want? (2017)

O álbum apresenta uma série de produtores, inclusive o próprio Miguel. A abordagem deles balanceia bem o aspecto pop com os experimentalismos técnicos e estilísticos, em uma batalha interminável entre as pretensões comerciais e artísticas do cantor, sendo que uma jamais vence a outra. Um exemplo disso é a forma como o repertório é arrumado para alternar ideias acessíveis e outras mais complexas. War & Leisure é o disco que melhor faz isso na discografia do cantor, aliás. Mesmo assim, não é um álbum tão impressivo quanto seu Wildheart, mas é um álbum importante, pois segue mantendo o nome do americano como referência para quem busca um R&B criativo e bem pensado. Além disso, é um bom exemplo de música pop feita no mundo e inevitavelmente afetada pelos eventos da contemporaneidade. Um álbum legal para ouvir, dançar e pensar.

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