2017 Jazz Resenhas

Van Morrison – Versatile (2017)

Uma experiência estimulante, relaxante e libertadora

Por Gabriel Sacramento

Confesso que fiquei um tanto relutante quando vi que o Sir Van Morrison liberaria mais um álbum de covers esse ano. Depois do ótimo Roll With the Punches, me perguntei qual era a necessidade de mais um álbum cheio de canções que não são originais para um artista já estabelecido como ele. Mantive a relutância até dar play no álbum, aí a entrega foi imediata: o charme do álbum me conquistou.

Assim como o anterior, o processo foi todo supervisionado pelo próprio Van e ele buscou um som anacrônico, próximo de como soavam os discos antigamente, só que a diferença é que aqui, ele foca no seu lado crooner interpretando standards de jazz. Ele sempre foi muito influenciado pelo gênero – inclusive muitos dos seus álbuns como o excepcional Moondance (1970) apresentaram o cantor brincando com elementos do estilo – e agora  decidiu gravar um álbum para homenagear artistas e canções emblemáticas. Assim como o anterior também, ele decidiu colocar umas faixas novas no repertório, 7 para sermos exatos, e o total é de 16 faixas.

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Van conduz o álbum com uma grande leveza e suavidade na transição entre as faixas, tanto que parece que estamos realmente em um show ao vivo. O álbum nunca perde o ouvinte, em nenhum momento, como o artista que não perde os olhos dos fãs no concerto. As originais foram bem entrelaçadas com os covers, tudo para fortalecer a visão que nos é transmitida ao término da audição: ele se encontra perfeitamente confortável manipulando elementos de jazz, indo do easy-listening até o mais intenso, sem deixar a musicalidade ser engolida por convenções ou por burocracia. É tudo muito autêntico. O irlandês conseguiu realmente impor sua persona forte ao invés de simplesmente reproduzir criações de outros artistas.

Para citar alguns destaques do tracklist: “A Foggy Day” dos irmãos Gershwin funciona muito bem, como se Van tivesse mesmo composto a faixa. “The Party’s Over”, “I Get A Kick Out of You” do Cole Porter e “Bye, Bye, Blackbird” do Ray Henderson e Mort Dixon também são excelentes, desde execução à forma como soam. Das originais, o grande destaque é a faixa que abre o trabalho, “Broken Record”, mas “Take it Easy Baby” também é poderosa.

Van-Morrison-new-songs-2017-2018-list-upcoming-latest-albums

Outro fator importante sobre o álbum é que Morrison conseguiu captar muito da espontaneidade dos músicos. Não parece ser um álbum muito calculado e extremamente organizado – daqueles que requerem uma série de reuniões antes do processo de gravação. E essa naturalidade reforça o fato de que não soa genérico, mesmo sendo um conjunto de covers. A mixagem do álbum sugere pouco tratamento e as variações de dinâmica, punch e volume ficaram por conta dos instrumentistas na hora da gravação. Em suma: não é um álbum sobre canções, mas sim sobre performances. A mix também é bem tridimensional e não soa abafada ou emborrachada, como muitos lançamentos de jazz por aí: ao contrário, é tudo limpo, cintilante – de cada walking bass aos solos – e com uma distribuição espacial bem definida. Por isso, até nos momentos mais cheios dos arranjos, como quando os metais estão lutando entre si, o ouvinte ainda consegue perceber uma consonância harmônica deslumbrante entre os instrumentos. Ou seja, na real, essa luta é uma dança. E muito bem ensaiada.

A abordagem do Van é tradicionalista e conservadora, evitando modernismos e prezando pela elegância técnica e classe típica de um gênero avançado de idade, mas que ainda tem vigor para atividades físicas e para um esportezinho de vez em quando. O Van de Versatile olha para o Van de Astral Weeks (1968) e imagina: “seu ingênuo!”. Lá em 68, o músico era mais inquieto, diversificado, mais sensível, mais criativo e se permitia viajar mais nas inúmeras possibilidades de emulações sônicas. O de 2017 já está derreado, experiente e busca valorizar de onde veio e o que o ajudou a chegar até aqui, trabalhando com poucos pontos focais por vez. Sem esquecer, é claro, de se divertir no processo. Versatile não é um disco focado no lado compositor do irlandês, nem na força das canções, mas na experiência de audição, que é libertadora e estimulante. E é difícil não se render e deixar a desconfiança de lado ao ouvir essas canções. Ouça e permita que o alívio o consuma.

Jill Furmanovsky
 Jill Furmanovsky
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