2017 Folk Indie Pop Resenhas Rock

Julien Baker – Turn Out The Lights (2017)

Um dos álbuns mais singelos do ano está repleto de ansiedade, depressão, vícios e solidão

Por Lucas Scaliza

Ao chegar ao disco de Julien Baker, tenha certeza de que sua saúde emocional está em dia. Ela pede logo na capa de seu segundo belo disco para que as luzes sejam apagadas. Colocá-lo para rodar significa, em grande medida, acender as luzes para ver o que há nele. E o que ele contém é de cortar os pulsos.

Todas as músicas de Turn Out The Lights são profundamente sentidas e tristes. Só não ficam mais pesadas porque a jovialidade de Baker não deixa expressar um pesar ainda maior e dá para acompanha-la na fossa. E é aí que as luzes realmente entram em cena. É bem melhor mesmo ouvir as canções dela – sempre acompanhadas por um piano ou pelo dedilhado de uma guitarra – no escuro. Sozinho ou sozinha, se puder, se aguentar, porque é muito claro que se trata de um disco criado quase que na absoluta solidão de sua compositora.

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Em quase todas as faixas, Baker canta com suavidade, sem forçar a voz. De certa forma, há algo de meditativo em suas sad songs, algo parecido com o que JFDR também fez em Brazil, mas enquanto a islandesa mantém o vocal impecavelmente sussurrante, Julien Baker sempre dá um jeito de demonstrar seu poder vocal, cantando versos mais fortes, mais altos e mais cortantes, dando aquele gostinho de dinâmica que o público geralmente adoro. “Shadoboxing”, “Happy To Be Here” e “Claws In Your Back” são grandes exemplos de como ela faz isso. Ela quase passa incólume por “Sour Breath”, sem usar esse recurso. Mas ela deixa a voz escapar, como um pedido de ajuda, no último momento, que soa como a última chance para seu eu-lírico também. Um recurso que ela já usava em Sprained Ankle (2016) e que foi intensificado agora.

Enquanto ao vivo a voz de Baker divide o espaço com o som que ela produz em sua Telecaster – bastante brilhante e rico em ambiência, aproveitando o melhor do timbre da Fender –, no disco de estúdio a produção tratou de dar um brilho maior para sua voz, que é o elemento que mais se destaca em qualquer faixa e é o que acaba ficando em sua mente após ouvi-la.

Às vezes a música dela acaba ficando com um clima meio genérico de passagem triste de série de TV adolescente. “Hurt Less”, por exemplo, tem toda a beleza necessária para isso, mas não só ela. Isso geralmente ocorre quando ela faz a base no piano e vemos orquestrações surgirem aqui e acolá para acompanhar a dinâmica. Uma faixa como “Even”, levada pelo violão, parece muito menos planejada e representa um lado mais interessante e real dela, em sintonia com sua imagem – que está longe de ser a de mais uma menina do pop que canta com um balé ao seu lado para preencher o palco.

Turn Out The Lights é doce, não agressivo, mas ainda assim é uma fossa infinita. Solidão e isolamento, términos de relacionamento, problemas com drogas, relacionamento com alguém que sofre de vício em drogas, ansiedade e depressão fazem parte do panorama de temas que envolvem o álbum. E nem sempre Baker está fugindo de todas essas coisas. Como ela mesma já afirmou, teve resultados aceitando certos problemas, o que lhe deu poder sobre eles e maior controle sobre si no fim das contas. Controle esse que foi capaz de transformar sentimentos ruins e situações adoecedoras em uma bela coleção de canções que, nos ouvidos certos, pode ser capaz de ajudar outras pessoas que estiverem com os mesmos problemas que ela.

Não corte os pulsos ao ouvir Julien Baker. Em vez disso, perceba sobre o que ela canta e repare como seu entorno pode ter pelo menos uma pessoa passando pelos mesmos problemas silenciosos e sorrateiros que ela retrata nas músicas. A catarse que suas composições produzem pode fazer a diferença para muita gente. Afinal, é a sensibilidade dela que faz de Turn Out The Lights um dos discos mais singelos de 2017.

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