2017 Indie Pop Resenhas Rock

Morrissey – Low in the High School (2017)

Morrissey e o caminhão de dez toneladas, os dois a 80 km/h

Por Eder Albergoni

As recentes polêmicas declarações de Morrissey sobre Donald Trump, Kevin Spacey e estupro dividiram as atenções com o lançamento de Low In The High School. É capaz que tenham gerado até mais repercussão. O extracampo de Morrissey tem sido, de fato, foco das atenções, sobretudo a especulação em torno da doença que fez o cantor adiar, cancelar shows e atrasar o lançamento do disco algumas vezes. Normal, então, que isso esteja presente no espectro do novo trabalho.

A morte é mesmo uma interpretação possível em vários momentos do álbum. As letras suscitam alguma questão ou paisagem referente às despedidas. Isso é bastante nítido nas primeiras músicas. Por sinal, nelas funciona o melhor do Morrissey que já vimos em todo esse tempo. Principalmente nas parcerias com Boz Boorer, as músicas parecem mais fluidas e naturais. A primeira metade do disco consegue soar radiofônica o suficiente pra não deixar traumas maiores, uma derrapada talvez em “Home is a Question Mark”, mas qualquer implicância pré-concebida ganha força só dali em diante.

Em “I Bury the Living” entra em cena o Morrissey cagador de regra problematizador. Aqui o double decker bus do ex-The Smiths começa a despencar ladeira abaixo. Uma música com mais de 7 minutos é um tiro no pé para um disco tão carregado de reclamações. Nada funciona em harmonia com o restante do álbum, fazendo dessa faixa o pior momento de Mozz em décadas. “In Your Lap” parece propor uma recuperação, mas o arranjo voz e piano deixa tudo mais pesaroso.

“The Girl of Tel-Aviv Who Wouldn’t Kneel” é quase uma valsa que começa exaltando a determinação da tal garota de Tel-Aviv, mas logo Morrissey se coloca como centro da história. A canção não é ruim, mas mostra os defeitos gerais do disco. “All The Young People Must Fall in Love” começa com uma batida gospel acompanhada de violão, um bom vislumbre de algo diferente, mais alegre, que o disco apresenta. Porém as boas intenções são soterradas no discurso oitentista do bardo.

A verdade é que as boas ideias musicais estão ali, de um jeito ou de outro. Mas chegar ao final de Low In The High School depois de ouvir “I Bury the Living” é um exercício de fé que não compensa. A supracitada canção enterra um disco que já anda com dificuldade e, pior, coloca todos os bons momentos no mesmo saco. Morrissey pode falar mais do que a boca ou do que o politicamente correto considera adequado hoje em dia, o problema é se perder e repetir as mesmas ladainhas que contava 30 anos atrás em um disco que não gerou, nem perto, a mesma comoção de antes. Quando a música não é suficiente, o que sobra é gastar energia e foco na coisa errada. Morrissey e o caminhão de dez toneladas, os dois a 80 por hora, podiam entrar em um bar.

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1 comentário em “Morrissey – Low in the High School (2017)

  1. Desde Vauxhal And I Morrissey não grava nada que preste. Já Johnny Marr até que não decepciona, pra variar.

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