2017 Resenhas Rock

Stereophonics – Scream Above the Sounds (2017)

Novo álbum é uma sombra do que um dia a banda já foi

Por Gabriel Sacramento

Para comemorar os vinte anos de Word Gets Around (1997), o Stereophonics resolveu lançar um álbum de inéditas ao invés de uma compilação. A produção do novo álbum foi assinada novamente pelo Kelly Jones, vocalista do grupo, e pelo Jim Lowe. A dupla tem produzido todos os álbuns desde You Gotta Go There to Come Back de 2003. O anterior, Keep the Village Alive (2015), era um álbum bem interessante, mantendo a veia britpop e olhando para modernidade sem preconceitos. Já Scream Above The Sounds nem parece um álbum propriamente dito, mas sim um conjunto de colagens.

É natural que as bandas mudem e pulem dos barcos quando eles estão afundando. Estilos são temporários e chega uma época em que se torna financeiramente inviável ou, às vezes, as pretensões artísticas dos músicos suplantam os limites dos gêneros. No caso do Stereophonics, a mudança foi bem administrada no Graffiti on the Train (2013), com uma abordagem diversificada da produção e no álbum anterior de 2015, com um olhar mais maduro para as qualidades da banda. Provando que mudar em si não é um problema.

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Só que as mudanças de sonoridade no novo álbum não são bem coordenadas, de forma que as 11 faixas do álbum juntas não funcionam harmonicamente para dizer algo ao ouvinte. É como um texto com um conjunto de letras mal ordenadas, sem coesão nem coerência, que não transmitem um significado definido, nem intenção a quem lê. Faixas como “What’s All the Fuss About” e “All in One Night” possuem uma melancolia interessante, mas que não são tão bem aproveitadas. Enquanto em um momento a banda soa melancólica, em outro soa mais solta, como em “Would You Believe”, e em outro soa mais rock’n’roll como em “Cryin’ In You Beer”. Em alguns momentos, a instrumentação é cheia, quase etérea, já em outros, eles abrem mão dos instrumentos e priorizam o formato acústico com violão-voz em “Boy and A Bike” ou piano-voz em “Before Anyone Knew Our Name”. Ainda temos uma faixas que parecem não se encaixar em nenhum dos momentos, como “Taken a Tumble”. Até as ótimas “Chances Are” e “Caught By The Wind” soam esquisitas dentro desse contexto em que parecem não pertencer. Imagine um monte de gente de diferentes países reunidos em um lugar e cada um falando um idioma. Isso não é nada perto do tracklist de Scream Above The Sounds.

Faltou uma produção mais exigente. As faixas atiram para todo lado, sem na verdade, parecer uma guinada sincera para essas direções. Faltou planejamento, coesão, diálogo entre as múltiplas referências, falta um senso de álbum, de obra maior que as músicas separadas e um senso de todo que engloba as partes. É um problema semelhante ao do The Killers em seu Wonderful Wonderful desse ano. Além disso, falta desenvolvimento dos instrumentos para cooperar com os arranjos: algumas faixas soam interessantes, mas as escolhas equivocadas de instrumentação prejudicam. É tudo sempre muito denso e as ideias ficam competindo entre si sem nenhuma noção de hierarquia entre elas. Algumas bandas costumam trocar de produtores depois de um tempo, para não correr o risco de “viciar” no mesmo som e na mesma abordagem. Talvez esse seja o problema do Stereophonics: eles precisam de alguém diferente no comando.

A mixagem do álbum também é uma bagunça. Tirando os momentos de pouca instrumentação – as músicas acústicas – o álbum soa extremamente cheio e pouco definido: não conseguimos distinguir os instrumentos tocando, pois eles estão sempre muito próximos e terrivelmente embolados no espectro – isso também gera uma falta de energia e impacto. Não há bons timbres, nem bons truques e a mix segue a direção estabelecida pela produção: nenhuma. É tão incômodo em alguns momentos que parece que estamos ouvindo um conjunto de demos não lançadas e não acabadas, ao invés de um álbum de verdade. A abordagem densa-até-incomodar lembra muito a da mixagem do Who Built the Moon (2017) do Noel Gallagher, só que o ex-Oasis teve o cuidado de trabalhar bem suas canções e as melodias conseguem se sobressair bem diante da base. O Stereophonics não. As melodias, o quê pop, tudo isso é prejudicado pela instrumentação.

Depois dos dois últimos álbuns, que foram legais e audíveis, e dos dias de glórias dos ótimos Language. Sex. Violence. Other (2005) e Performance and Cocktails (1999), o Stereophonics soa agora como uma sombra/vulto/borrão do que um dia já foi. A jovialidade, rebeldia, melancolia controlada, guitarraria bem timbrada e toda aquela veia britpop está perdida no vento e a banda ainda não decidiu o que quer ser agora. Para os que gostam de ver a metade cheia do copo: temos faixas que mostram eles em arranjos diferentões e curiosos com relação ao que já fizeram antes; e a banda soa cada vez mais pop e esse pop é bem composto e pouco genérico. O problema é que eles parecem não enxergar esse potencial e não abraçam esse lado pop, preferindo um péssimo híbrido entre pop e outras referências, que não funciona bem. O resultado é uma verdadeira mixórdia sonora, sem referenciais claros, tão confuso quanto a ideia de andar sem ter um chão. Resta ouvir as maravilhas que já fizeram e torcer para que melhorem no futuro.

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